Archive for Novembro 2008
Ainda Brideshead.
O comentador João Gil assevera-me que alguns jornais de referência mencionam o filme como a adaptação para cinema de um romance da famosa escritora Evelyn Waugh.
Eis uma asneira digna daquele número funesto da Noticias Magazine em que a Laurinda Alves se pôs a citar Laroche Foucault.
Os pequenos estúpidos.
Ainda não percebi porque querem os nossos meninos tanta educação sexual. Imaginarão eles que vão passar o dia todo a foder nas salas de convívio? Acham que é preciso um módulo de 30 horas para aprenderem a colocar o preservativo? Julgam que a professora de saúde lhes vai revelar alternativas à posição de missionário? É tudo um pretexto para organizarem órgias com muita coca e festivais de t-shirt molhada? O que se passará dentro daquelas cabeças lerdas, que se exprimem em grunhidos pouco articulados? Não se pode suspender esta gente por seis meses, para pôr tudo na ordem?
Antes de Brideshead.
Estas duas criaturas fazem os papéis de Charles Ryder e Sebastian Flyte no mais recente assassinato do livro de Waugh. Basta olharmos para os seus rostos lânguidos, vácuos e suficientes para percebermos que nunca leram um livro, quanto mais estudar em Oxford e passar férias no Pallazo Barbarigo. Manifestamente ocuparam os dias em castings a exibir ares amaneirados, como agora exibem aos pulinhos os seus sacos de compras em lojas da Fendi, supondo que já receberam o cachet. Os dois meninos não vieram de uma novela eduardiana, mas de um filme softcore gay. Não temos que ir além do cartaz para compreendermos isto: a mesma obra que pretendia ilustrar o rebaixamento de uma cultura trespassada pela vulgaridade redonda e satisfeita é agora a vítima indefesa dos maus instintos que pretendeu denunciar — de um mundo que trocou a arte pelas dietas e pelos trapinhos.
Vou ver a pepineira, e logo digo se o meu arrazoado se confirma.
O problema.
Se encherem Lisboa de bicicletas, onde é que vamos pôr os contentores?
Red.
De Marx só guardo um conselho: que nunca devemos confundir as nossas ideias com os nossos sentimentos. Suponho que é um bom tema para quem não distingue a política da Taça de Portugal.
O inocente.
Sei pouco sobre Dias Loureiro. Mas lembro-me bem disto.
Sócrates, dono da História
O povo está contra nós.
Ricardo Costa, num estilo atabalhoado, resume bem a situação:
Passado o período “Ferrero Rocher” (roubo o nome ao Inimigo Público), que a fez desaparecer no Verão, Ferreira Leite regressou da mesma forma. (…) O que disse dos polícias vai além do Manuel Monteiro das fases mais populistas. O que disse da Comunicação Social é absurdo. O que disse da ditadura é aterrador.
A minha pergunta é esta: o que é que faz a direcção do PSD? Quando olho para a lista dos nomes vejo lá muita gente que sabe de política. São eles e elas que não ajudam Ferreira Leite ou é ela que não se deixa ajudar? A frase desta semana revela a inexistência de um pensamento político. Tudo isto seria de pouca relevância se não se estivesse a onze meses de eleições e o mundo não estivesse à beira da recessão. É claro que, perante este problema, o PSD já começa a preparar-se para o único espectáculo em que bate a concorrência, a autofagia.
Pacheco Pereira e uma boa parte da elite do PSD passaram o último ano a menorizar Barack Obama porque “ele” era só retórica. Pois a retórica faz parte da política desde que o homem aprendeu a falar. No PSD alguém se esqueceu disso e acha que o que se diz, como se diz e onde se diz, é indiferente: se o povo não perceber é porque é estúpido e se é estúpido não merece ser governado pelo PSD; se os jornalistas não compreenderam são burros e se são burros não há nada a fazer; se as sondagens descem é porque estão mal feitas; se a frase foi cortada é porque houve má fé; se ninguém percebeu aquele parágrafo genial da página 3 isso deve-se à máquina de propaganda do PS; se o BPN tinha malta do PSD a mais é porque os gajos do PS levaram o banco à falência; se Manuela Ferreira Leite é perseguida é para esconder os verdadeiros problemas do país.
Era bom que este problema se resolvesse até ao fim do ano.
W. Eugene Smith nos arquivos da Life.
A colocação online dos arquivos fotográficos da revista Life deu-nos acesso a um conjunto de séries elaboradas por grandes fotógrafos. Melhor que isso, enquanto na revista essas reportagens eram limitadas a poucas dezenas de fotografias, na internet podemos ver muitas das que ficaram de fora. Eis um exemplo famoso: o trabalho de W. Eugene Smith sobre os médicos de aldeia. Chama-se Country Doctor — há mais aqui.
Risotto de espargos.
Refogue a chalota em manteiga até ficar translúcida. Junte o arroz (carnaroli, arborio) e mexa durante dois minutos. Junte uma concha de caldo de legumes ou galinha quente de cada vez e mexa sempre, até o caldo ser absorvido.
Entretanto ferva os espargos 3 ou 4 minutos e corte-os aos pedaços.
Coloque os espargos, uma colher de manteiga, pimenta e parmesão ralado no arroz. Mexa-o levemente e aguarde cinco minutos. Sirva com mais parmesão em pratos aquecidos.
Adeus à razão.
Quando escrever as memórias da minha vida profissional, hei-de falar muito nos elefantes brancos. Refiro-me ao cortejo de projectos megalómanos que em Portugal atraem os investidores porque estão associados a palavras como tecnologia ou modernidade (reconhecem o padrão?), ou porque, simplesmente, desafiam o bom senso.
Já as empresas que parecem ter um futuro, os negócios bem posicionados, as boas ideias, lutam com perpétuas aflições de tesouraria. Muito disto é fruto da vaidade pura e simples: ainda há pouco conheci o exemplo de uma imobiliária de sucesso que na fase de arranque comprou um automóvel de luxo a cada um dos seus quatro administradores (hoje esses imbecis acumulam dívidas a quem lhe presta serviços). Em outros casos entramos no domínio da patologia.
A queda da Byblos é bem relatada por Eduardo Pitta e Pedro Veira — nos próximos tempos assistiremos a inúmeros fracassos aparatosos do género. Quem me dera estar enganado.
A consciência da mortalidade.
No meu recanto microscópico perdido entre as esferas medito na volubilidade dos homens. Eis um cenário digno de Montaigne. Uma pulga contempla o infinito e lamenta o pêlo indigesto do cão. Penso que toda a filosofia é um vampirismo derrotado. Depois penso que é irónico procurarmos a paz e ficarmos tão aflitos quando a encontramos. Um cemitério é como uma camarata, só que não se dorme mal. Tem flores de plástico e calotas de mármore em que à noite se derrama o brilho dos fogos-fátuos. Não há qualquer uso para a consciência da mortalidade.
Ordem.
Creio que o paradoxo foi formulado por Rousseau e repetido por Kant: o povo nem sempre está preparado para decidir o seu destino, é verdade. Mas se nunca decidir o seu destino, então nunca ficará preparado. É o exercício do poder que lhe dá a inteligência do poder.
As soluções paternalistas, autoritárias, têm esta enorme desvantagem: ao coarctarem a responsabilidade dos cidadãos, impedem-nos de se aperfeiçoarem, e de aperfeiçoarem a sociedade em que vivem — são regimes fixos, que não se regeneram.
Em Portugal, os privilegiados acreditam que habitam um país de nhurros sem vontade própria, ou com uma vontade torturada pela estreiteza do sistema educativo e da brutalidade rural. Infelizmente, a clique que dirige o país é incapaz de perceber que é sua a responsabilidade de vivermos num país de nhurros. A empáfia dos senhoritos, transversal num meio em que qualquer meteco se considera um elitista, a escassez dos recursos, a má distribuição da riqueza e sim, o analfabrutismo da plebe, fortalecem a hierarquia e desaconselham a miscigenação.
Nunca houve uma gente como a nossa, que tanto gostasse de ter criadas ou que fosse tão longe para tratar os mais pobres, os mais frágeis e os mais desprotegidos como criadagem. (Os exemplos são inúmeros, mas citemos apenas esse fenómeno esclavagista que é o desequilíbrio dos salários entre homens e mulheres).
Num caldo de cultura assim, qualquer manifestação de desprezo pela democracia é perigosa, não porque cause escândalo, mas porque encontra logo uma multidão de signatários. É perigosa, embora comum. Esse vício, esta quase inconsciência dos políticos, essa condescendência blasé dos opinion makers tem que ser combatida com toda a radicalidade. Não pode haver tolerância para quem trata os cidadãos como débeis mentais.
Quem deve ser posto na ordem são os eleitos, não os eleitores.
Pronto, Daniel, explica-lhes como se tivessem cinco anos.
Aqui vai:
Não, o país não pode parar.
Numa notícia que passou compreensivelmente despercebida (afinal tratava-se apenas da realidade), uma organização sueca divulgou esta semana o seu estudo anual que hierarquiza os sistemas de cuidados de saúde em 31 países europeus. Entre esses 31, Portugal aparece em 26º lugar — à frente da Roménia, da Bulgária, da Croácia, da Macedónia e da Letónia. Temos motivos para nos orgulharmos.
Infelizmente, nem tudo são boas notícias. No ano passado o nosso país ocupava a 19ª posição, e no ano anterior a 16ª. Ou seja, Portugal desceu 10 posições em 2 anos, apesar dos méritos extraordinários do ministro cessante e da boa vontade da senhora que, digamos assim, o obnubila.
O estudo afirma que em Portugal o acesso aos cuidados de saúde é um dos piores da Europa. E num ápice, o que antes era berrado por uns desgraçados do Rebordelo a que ninguém ligou pevide é agora confirmado pela prestigiada Health Consumer Powerhouse — organização especializada na informação aos consumidores sobre cuidados de saúde.
Mas podemos ficar tranquilos: o Governo garante que as coisas estão a melhorar. Um pouco como a educação.
Uma ajuda.
Não é preciso muito para que os professores mereçam o respeito do Governo. Basta que se tornem camionistas.
O tom da oposição (2).
Balzac dizia que só os tolos não escrevem por dinheiro. Quase concordo com ele, quando defendo que quem escreve sempre quer alguma coisa. Um blogger que pulou a cerca das suas afinidades privadas, que já não faz exactamente um diário intimo ou um caderno de apontamentos, que atrai, por assim dizer, um público, tem habitualmente uma consciência aguda de que é lido.
Ora, para muita gente jovem — ou pobre — com algum talento, a reflexão de Balzac é um imperativo categórico (embora andemos longe do sentido filosófico do termo). Escrever é uma estratégia improvável para ganhar um estipêndio, um meio hipotético mas reverberante de alcançar aquela breve notoriedade que impressiona caloiras da faculdade de letras e nos permite escapar à melancolia pinguça de um quarto insalubre com vestígios de onanismo, latas de salsichas e manchas de whisky barato entre beatas chupadinhas até ao coto do algodão amarelado.
Este jovem literato, como as meninas que antigamente noivavam para sairem de casa, desenrola a sua teia de relações úteis, de amizades convenientes, de cumplicidades electivas que hão-de sacrificar-se no altar de uma crónica, nos solipsismos de uma coluna, enfim, num canto escuro de um jornal qualquer. Chama-se a isso a sua oportunidade.
E encontramos, logo aqui, um tom: o blogger que quer viver, valha-nos Deus, da opinião tem uma clientela que conhece bem — e nunca defronta. Tem um estilo, que apura lentamente — sem sobressaltos. Busca amigos em lugares e protectoras em salões. Quando fala de política, mede as palavras. Quando discorre sobre os assuntos da república, trata de não maçar os republicanos. Não é bem um escritor, mas um estagiário.
Como Leibnitz, poderia afirmar que em algum momento deu razão a toda a gente. Mas apesar do charme fácil, da atenção impecável, ele nunca perde de vista o próximo pedaço de pão. A fome é a mais confiável das bússolas, a medida do seu sucesso.
Eis um espírito colorido, mas não particularmente aristocrático.
Em breve falaremos de Espinosa.
O futuro da educação.
Escola C+S de Charcarena
Disciplina de Português
Ano lectivo: 2018-2019.
Ficha de avaliação.
Bernardo Simões Garrincha…………………………………………. 18 valores
Martim Argola de Campos…………………………………………… 19 valores
Pureza Jacinta Albardeira…………………………………………….. 19 valores
Barack Manhiço Bantju………………………………………………… 16 valores
Carlota da Costa Mendes…………………………………………….. 19 valores
Obama Mabjaia Pilanguê……………………………………………… 15 valores
Michelle Nhangaia Abuteké………………………………………….. 16 valores
Martim Antunes da Silva………………………………………………. 19 valores
Caetana Granjola Barroso…………………………………………….. 18 valores
Lourenço Carranca da Costa…………………………………………. 18 valores
Obama Manhuca Piruçaté……………………………………………… 15 valores
Francisca Perdigoto da Silva………………………………………….. 19 valores
Caetana Nhafarros Delgado…………………………………………… 18 valores
(…)
A lição.
O protesto dos professores foi a quarta maior manifestação ocorrida em Portugal desde o 25 de Abril. Mais de oitenta por cento dos docentes vieram a Lisboa mostrar o que lhes ia na alma. Em casa ficaram só os entrevadinhos, as mães solteiras com cinco filhos que não tinham quem os guardasse, e o colega Zé Manel da C+S do Rebordelo, que não gosta de se locomover por meios rodoviários porque teme ser sequestrado por extra-terrestres.
Quem ainda julgava que este Governo mantinha uma ligação ténue à realidade nacional, pode desenganar-se. A ministra da educação, de olhinho vítreo, já afirmou que o protesto serviu para intimidar os muitos professores (sim, professores) que a apoiam.
Quanto ao primeiro-ministro, mantém-se inflexível no rumo que traçou, disparando insultos esganiçados à esquerda e à direita oportunistas, que não compreendem a sua visão para o país — uma visão que consiste em aumentar a classifição das escolas sem lhes alterar o mérito, e tratar como gado num matadouro cento e tal mil licenciados que o odeiam.
Ao redor do bunker em que actualmente se reúnem os nossos governantes, a atmosfera está tranquila — tão tranquila como num forno crematório depois do expediente. Até a blogosfera socialista, com excepção de dois ou três, como direi, exaltados, parece agora evitar o assunto. Para trás ficaram as vigorosas discursatas contra o corporativismo, e as trôpegas denúncias de quem impedia o progresso radioso do socialismo autocrático.
Sim, o povo ainda apoia o partido do poder. Também era assim em Berlim, com os russos à porta de faca na mão — nas horas difíceis os homens preferem os algozes que conhecem.
Uma coisa é quase certa: tudo vai ficar muito pior antes de aprendermos alguma coisa.
O tom da oposição. (1)
A crítica deve ser construtiva ou assassina? Deve apelar à razão ou ao instinto? Deve ser um longo argumento que se espraia em infinitos a fortiori, ou um panfleto incendiário e mobilizador?
Já sabemos o que defendem, com divertida candura, aqueles que são criticados — mas isso não nos ajuda muito. Espero regressar ao tema nos próximos dias.
Isto não é a América.
Sim, eu sei, sou um desmancha-prazeres. Mas vale a pena assinalar que quem derrotou um Governo ignóbil foram os americanos. Não fomos nós.
A América defendeu o seu Estado de direito, enquanto nós o malbaratamos entre palminhas servis.
A América reencontrou-se com a nobreza das suas instituições, enquanto nós nos extasiamos com quem governa por decreto e enxovalha as regras da democracia.
A América protegeu as suas minorias enquanto nós permitimos que classes profissionais inteiras sejam humilhadas por uma casta de empertigados que nunca trabalhou.
A América derrotou a corrupção e a ganância dos seus políticos, enquanto nós louvamos a ganância e a corrupção dos nossos.
A América reencontrou o verbo claro da cidadania, nós deleitamo-nos com a língua de pau dos amigalhaços.
A América vai impedir que se destruam as suas áreas protegidas, enquanto nós suspiramos por mais um mamarracho na capital.
A América venceu a mafia republicana, mas nós tapamos os ouvidos quando gente bem informada fala de Al Capone em Portugal.
A América pede contas a quem manda, enquanto nós pedimos migalhas a quem se enche.
A América deu um pontapé em Bush, nós vamos dar a maioria absoluta a Sócrates.
Muitos dos que deliraram com Obama, irão hoje rojar-se docemente aos pés de Alberto Martins ou Vitalino Canas. Irão fazer isso sem dúvidas, sem perplexidades filosóficas, sem hesitações.
Porque vida é mesmo assim: os americanos são estúpidos, nós somos europeus.
Boa notícia para os conservadores portugueses:
Bush ainda tem 10 semanas para carregar no botão. Haja esperança.
Uma das apoiantes de Obama.
Duas notas.
1.
Nunca me imaginei a fazer uma recomendação deste tipo, mas cá vai: ainda devem encontrar na FNAC do Chiado este livro da Thames & Hudson, Paintings in Proust, que é afinal um conjunto bem embrulhado de citações da Recherche com reproduções das obras de arte a que se referem. A pintura tem uma importância extrema na actividade literária do escritor francês, que começou por traduzir Ruskin antes de publicar alguma coisa. Quem sempre quis saber de que diabo estava o homem a falar, escusa de queimar as pestanas na biblioteca da Gulbenkian.
2.
Já saiu a AG, que se não é a melhor revista de fotografia do mundo (há sempre a Aperture) para lá caminha. David Lee assina um artigo sarcástico sobre Koudelka e Ad Coleman revela-nos o que andam os fotógrafos chineses a fazer para humilhar o Ocidente. Eis um pequeno exemplo:
À noite com Paula Rego em Algés.
Regressei agora do magnífico Palácio dos Anjos, em Algés, que alberga o espólio da colecção Manuel Brito. Aí assisti a uma visita guiada à obra de Paula Rego, amiga da família do galerista. As excursões nocturnas decorrem apenas uma vez por mês, a partir das nove — o que resulta num excelente serão.
Hoje penitencio-me por ter ignorado durante anos a obra de Paula Rego. Claro que assisti a uma ou duas retrospectivas (não sei quantas houve), mas as suas alusões escancaradas perturbavam-me, e além disso colocava-a sob a longa sombra de Balthus, que conheço muito bem, pois visitei a única grande retrospectiva do pintor realizada após a sua morte no Palazzo Grassi.
Nesta exposição destacam-se as cinco telas sobre a excisão genital feminina, que foram criadas há cerca de um mês. E há ainda uma obra concebida para o evento, homenageando a sua curadora. Enfim, muitas coisas novas, apresentadas elegantemente num espaço admirável.







