vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Outubro, 2008

O principe das trevas analisa a campanha eleitoral.

Karl Rove, o principe das trevas ou o arquitecto de Bush, publicou no Wall Street Journal uma análise muito interessante da campanha, que é também um refrigério para a esquerda:

Barack Obama holds a 7.3% lead in the Real Clear Politics average of all polls, but the latest Gallup tracking poll reveals that there are nearly twice as many undecided voters this year than there were in the last presidential election. The Investor’s Business Daily/TIPP poll (which was closest to the mark in predicting the 2004 outcome — 0.4% off the actual result) now says this is a three-point race.

This week also brought a reminder that Sen. Obama hasn’t closed the sale. The Washington Post/ABC poll found 45% of voters still don’t think he’s qualified to be president, about the same number who doubted his qualifications in March.

This is seven points more than George W. Bush’s highest reading in 2000 and the worst since Michael Dukakis’s 56% unqualified rating in 1988. It explains why Mr. Obama has ignored Democratic giddiness and done two things to keep victory from slipping away.

First, he is using his money to try to keep John McCain from gaining traction. (…)

Money alone, however, won’t decide the contest. John Kerry and the Democrats outspent Mr. Bush and the GOP in 2004 by $121 million and still lost.

Algumas notas.

É a segunda vez que um leitor deste blog me sugere em comentário que tenho uma obsessão por Sócrates. Não é verdade. De facto, eu até simpatizo com o primeiro-ministro. Parece-me uma pessoa inteligente, determinada e com visão estratégica. Também o julgo desonesto, mas todos temos defeitos (Talleyrand, um homem extraordinariamente corrupto, não deixou de ser um grande diplomata).

O meu problema com o primeiro-ministro é político: creio que a sua inteligência é destrutiva, que a sua determinação é ruinosa, e que a sua visão estratégica conduzirá Portugal a uma mediocridade reles e insolente. Para um político, trabalhar muito não chega: a Justiniano chamavam o imperador que nunca dorme. Ora, também nós tivemos um homem que não dormia — Krus Abecassis. Só que enquanto o primeiro conservou Bizâncio, o segundo ia destruindo Lisboa. Algo de semelhante ocorrerá com Sócrates.  

O Partido Socialista, que teve o melhor dos berços, encarnou os valores da liberdade, da democracia e da transparência. Mas toda essa herança foi desbaratada em alguns meses, com a maioria absoluta. Hoje, o PS representa o que há de pior nos sistemas políticos da Europa do Sul: o autoritarismo dos pequenos poderes, o saque das obras públicas, a cupidez dos amigalhaços, o controlo mal disfarçado dos media, as ameaças veladas, o insulto gratuito, o servilismo dos aparatchik, a corrupção descarada, o falhanço económico.

Que tem isto a ver com um partido que se revia nos sistemas de governo nórdicos, na sua paz social negociada, na apologia do diálogo permanente, no pragmatismo das decisões políticas, no estudo honesto das alternativas técnicas? Onde está esse PS das pessoas amáveis, cultas, densas, que aprendemos a respeitar? A triste verdade é que regrediu amargamente. 

O Primeiro-Ministro decidiu responder aos anseios dos nossos pobres-diabos, dando-lhes exactamente o que queriam: alguém que mandasse, ainda que mandasse mal. Alguém que se desse ares, ainda que lhe faltasse a substância. Alguém que erguesse estradas e caminhos-de-ferro, ainda que sob um rasto de terra queimada. Alguém que citasse poetastros, distribuisse computadores e patrocinasse exposições internacionais. Alguém que um dia pudesse dizer, como os tiranetes da América do Sul: nós roubámos, desprezámos e mentimos — mas fizemos.

Este é o PS do Primeiro-Ministro. Um homem que atraiçoou os fundamentos da nossa democracia, a história do seu partido e futuro do país.

El Bulli na Chinatown.

O New York Times foi às compras com Ferran Adriá. Mnham.

Lá se vai a disciplina de voto.

Acredito até que, se um dia alguém se dedicar a reconstituir a memória destes tempos lamentáveis, o início do fim do presente governo será atribuído aos dias em que se percebeu que quem nos liderava era afinal um perfeito espelho do seu povo: o bom português dos esquemas, dos favores de amigos, da vitória das aparências dos canudos sobre as realidades esquálidas. A verdade é simples e triste: o nosso primeiro-ministro, depois de afanosamente procurar a forma mais expedita e menos trabalhosa de compor o currículo escolar, ainda teve o topete de mandar esconder a história, mal se viu apanhado.

Grace.

There’s a moment
when the day forgives you everything,
lights up its eyes for you.
And every branch of every tree
bends your name into a rising;
one swift shot at the mark -
a ladder to heaven, illuminated.
For one moment.
And then you move on.

Lesley Strutts

A turba.

Palmira Silva faz um bom resumo do desvario que atravessa os comícios de McCain e da pobre imbecil que este escolheu para candidata a vice-presidente da nação mais poderosa do mundo. Aparentemente todos os nhurros do Midwest se uniram nos últimos dias para despejarem rios de baba à menção do terrorista que pretende sequestrar a terra prometida, desbaratando o grandioso legado do presidente Bush. 

Mas quem julgou que Portugal era a Europa, e que na Europa éramos diferentes, pode perder as ilusões. Das profundezas de uma caverna no Rebordelo veio o André Pessoa estacionar a burra e poisar o seu cajado no Cachimbo de Magritte, para extasiar os crédulos com promessas miríficas de um paraíso ornamentado por música country e cadeiras eléctricas — um mundo em que qualquer sopeira de mamas grandes chega a governadora, se conseguir soletrar meia-dúzia de insultos com fulgor evangélico num auto-da-fé. 

Durante semanas, o André aborreceu-nos com as suas acusações graves contra Obama: que era preto, que era amigo de terroristas, que praticava (vejam lá) a política do ódio, que trazia com ele, valha-nos Deus, o socialismo. Mas agora — agora que Sarah Palin é acusada pelos orgãos fiscalizadores do seu Estado do Alaska de abuso de poder, o que é que faz o André? Faz o que pode: brinda-nos com o mais auspicioso dos presentes — o silêncio. Esperemos que seja longo, fecundo, e que termine em derrota.

Entendo pouco de física, por isso penso no universo poeticamente. Sempre me agradou a ideia de que uma poeira cósmica percorria o meu ânimo enquanto este escapava ao repouso eterno. Saber que os átomos cumprem a sua função apazigua-me.

Há uma economia nas partículas que nos consola do tempo perdido: ele amou em vão, mas serviu de pasto aos electrões. Ela caiu em si, fulminada por um quark. Fulano ou sicrano mantiveram uma carga negativa, que repeliu os isótopos. Júlia albergava moléculas de carbono em homeostase, organizadas como um pequeno sistema solar. Dinis cultivou um je ne sais quoi autopoiético de base aquosa e regulação proteica. 

A literatura não alcança a vasta intencionalidade dos corpúsculos — a sua infinita melancolia, banhada por uma réstea de luz.

Promessas.

Sim, sim, precisamos de regulação, e tal. Mas as invectivas de Saramago contra o capitalismo lembram-me o juramento de Anibal contra o domínio de Roma: este seria extinto, é um facto, mil e setecentos anos mais tarde.

We’ll always have Paris.

Dica.

A queda do valor das acções na bolsa de Lisboa não deve apoquentar o investidor desprevenido. A Mota Engil, liderada por Jorge Coelho, é um título que ainda oferece excelentes garantias de rendibilidade.

The Films of Charles & Ray Eames.

Na prisão de Custóias, um amável grupo de admiradores prepara as boas vindas ao nacionalista injustamente acusado.

Querias.

É um sinal do nosso atraso: nós votamos com disciplina o casamento gay e nos EUA os deputados votam livremente o Plano Paulson, decisivo para salvar a economia… Se é para votarmos todos como nos mandam, então basta um deputado por partido.

Ricardo Gonçalves, deputado socialista, no Público de hoje.

Resumo do telejornal.

O governo anunciou. O primeiro-ministro decidiu. O secretário de estado inaugurou. O lider do maior partido ofereceu. O ministro garantiu. A maioria aprovou. Os meninos receberam impantes. O grande empresário, rendido, enalteceu.

O livro tem alguma coisa de profético que combina com os tempos.

O optimista.

É quase um escárneo à objectividade e ao bom senso esta medição da ERC entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino na pantalha da RTP.São ambos escolhas arbitrárias de um poder arbitrário que se prolonga no tempo. O que vale é que o regime pluralista resiste a todos esses jogos.

José Medeiros Ferreira.