vida breve

Ainda (suspiro) o provincianismo.

com 6 comentários

Pedro diz que concorda comigo porque chamei provinciana à Palmira Silva do Cinco Dias. Na verdade falei em abstracto de eurocentrismo, o que é diferente. A discussão sobre o provincianismo, tal como foi encetada pelo Lutz, o Galamba, o João Miranda e, agora, reanimada pelo Pedro Picoito, aborrece-me. Julgo que é um exercício estéril (e, vamos lá, pouco viril), despejar quilos de filosofia sobre um nome feio antes de o atirarmos aos nossos adversários, como se tentou fazer nessa ocasião. 

O que me atrai nesta história pouco tem a ver com a visão do mundo de Palmira Silva, mas com outro fenómeno, bem mais interessante: o uso indiscriminado das eleições na América como um anestésico para a vida política em Portugal. O post do Pedro Picoito que citei ontem neste blog ironiza bem com a situação: para o Cinco Dias, os abusos do poder só interessam se ocorrerem no Alaska. A liberdade de imprensa só é ameaçada pela Fox News. E quando o Governo põe em risco algum instituto da vida democrática, é certo que estamos a falar no Governo de George W. Bush e na vida democrática dos Estados Unidos.

São estas coisas que me ocupam: a demissão do nosso centro-esquerda perante a mais vasta concentração de poderes alguma vez tentada em Portugal desde 1974. O respeitinho pressuroso a quem está por cima, disfarçado de irreverência por quem está longe. A má fé, a falta de cultura cívica de tudo isto.

Saber se a Palmira Silva é ou não é provinciana — eis um assunto que prefiro deixar à atenção urgente, dócil e alheada dos filósofos. Não é o Cinco Dias que tem um filósofo? 

Escrito por Luis M. Jorge

23-09-08 às 08:41

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6 Respostas

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  1. «O respeitinho pressuroso a quem está por cima, disfarçado de irreverência por quem está longe. A má fé, a falta de cultura cívica de tudo isto.»

    E, se me permite acrescentar, a cobardia. Parecerá algo de somenos, sobretudo quando comparada com a má fé a a falta de cultura cívica, mas é algo que me irrita particularmente.
    Não me refiro à dita Palmira Silva, uma vez que não acompanho regularmente o Cinco Dias (e quando lá vou, concorde eu ou não com eles, é para ler o Rui Tavares e a Câncio), mas a algo que é muito comum e que observo um pouco por todo o lado (na empresa, na academia, etc.).

    Carlos Azevedo

    23-09-08 em 09:58

  2. Luís,

    permita-me que não concordo consigo na história da concentração de poderes. O luís pode achar o que quiser; agora não venha impôr agendas políticas aos outros. Eu não acho. Posso?

    O Luís acha as eleições americanas um tédio. Tudo bem. Só não percebo porque é que eu devo concordar consigo. Estou no meu direito, ou não?

    Ninguém tentou (eu pelo menos não tentei) racionalizar um simples preconceito. E essa da bagagem filosófica para legitimar um insulto é, desculpe lá, um pouco delirante. Eu acho preocupante que uma pessoa como a Palin (e já agora, como McCain) lidere o país mais poderoso do mundo. Tenho razões concretas que podemos discutir, mas não me parece que valha a pena, pois o Luís prefere ‘psicanalanizar’ as minhas motivações.

    Um abraço,
    joao

    joao galamba

    23-09-08 em 11:02

  3. Caro João,
    Nunca me passaria pela cabeça “impôr-lhe” uma “agenda política” que não fosse a sua. Não fique irritado.

    Já agora recordo que respondi às objecções que me colocou no post em que citei o Pedro Picoito.

    Abraços,
    L.

    Luis M. Jorge

    23-09-08 em 11:08

  4. Luís, realmente não foi muito elegante citá-lo como arma de arremesso contra a senhora. Quem me lesse sem o conhecer (possibilidade, contudo, estatisticamente desprezível) poderia pensar que, se concordo consigo, o Luís também concorda comigo. O que, como se vê, não é verdade. Vou tentar corrigir o equívoco mais logo.
    Quanto ao “provincianismo” ou não da Dra. Palmira Silva, o que acho digno de case study é o modo como ela conjuga argumentos de autoridade científica com uma total incompreensão da realidade que critica. A isso chamo provincianismo. A América, para ela, resume-se aos cientistas “liberals” que se calhar até conhece pessoalmente. O facto legítimo e democrático de haver milhões e milhões de pessoas que pensam de forma diferente não passa de um pormenor irritante (muito irritante) que o progresso há-de varrer um dia. Se isto não é o princípio da intolerância… Tirando isso, a “visão do mundo” de Palmira Silva é-me razoavelemente indiferente. Ou era, até agora. Convém estar atentos aos ayatollahs do progresso.

    ppicoito

    23-09-08 em 11:35

  5. Pedro, não se preocupe em corrigir o que quer que seja: eu já o corrigi. O que me faz discordar de si é um problema de eficácia política. Quanto à análise do centro-esquerda, pelo seu post que citei ontem posso concluir que estamos mais ou menos de acordo — o que é uma coisa digna de se comemorar.

    Luis M. Jorge

    23-09-08 em 12:38

  6. [...] (…) outro fenómeno, bem mais interessante: o uso indiscriminado das eleições na América como um anestésico para a vida política em Portugal. (…) os abusos do poder só interessam se ocorrerem no Alaska. A liberdade de imprensa só é ameaçada pela Fox News. E quando o Governo põe em risco algum instituto da vida democrática, é certo que estamos a falar no Governo de George W. Bush e na vida democrática dos Estados Unidos. São estas coisas que me ocupam: a demissão do nosso centro-esquerda perante a mais vasta concentração de poderes alguma vez tentada em Portugal desde 1974. O respeitinho pressuroso a quem está por cima, disfarçado de irreverência por quem está longe. A má fé, a falta de cultura cívica de tudo isto.   [...]


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