vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Setembro, 2008

A terra sem amos.

Por decreto de uns mangas-de-alpaca obedientes, Marcelo Rebelo de Sousa vai ter um programa tão curto como o de António Vitorino. A notícia, que é desagradável, não chega a ser trágica: pior seria se António Vitorino tivesse um programa tão longo como o de Marcelo Rebelo de Sousa.

O horror. A tragédia. O Manel.

Foi gira a festa do Lux. Estava lá a Cilinha, a Tansinha, a Martinha, a Renata, a Pipinha, e até avistei algumas mulheres. O tema, aparentemente, era a pedofilia. Hoje em dia ando caseiro, e só aceitei o convite porque já não ia a uma festa tão grande desde, hã, sexta-feira. Não consegui chegar muito atrasado, o que não impediu os meus amigos de se divertirem. A P. estava esplendorosa. O Fernando tinha um ar distinto, que vai perder asssim que ler estas linhas e concluir que mencionei o seu nome. Desta vez, o Manel fez um anexo com churrasco e tudo — julgo que foi a primeira ocasião em que a maior parte daquelas pessoas provou carne. Saí às cinco da manhã e cheguei a casa a estas lindas horas. Aviso já que vou apagar este post mal acordar. Se acordar.

Oh as casas as casas as casas

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
ela morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

3 notas.

1. 

O Rui Tavares dedica-me umas farpas suaves no seu consultório sentimental e conclui: 

prefiro que o PS não tenha a maioria absoluta, acho que o BE tem de servir para mudar as coisas e acho que o país tem a ganhar com um governo de ambos

Concordo com a primeira parte, admito a segunda e suspendo a minha descrença perante a terceira, que não vou discutir. Mas chamo a atenção para isto: começa a faltar com urgência um discurso estruturado sobre as desvantagens das maiorias absolutas, um ensaio sobre os desvios a que conduzem no regime, uma apologia do poder negociado (não a mera separação de poderes)  — sei que o Rui tem o espaço e o talento para fazer isso, oxalá tenha a vontade.  Ele que me perdoe esta tentativa um pouco canhestra de o influenciar.  

2.

O J. M. Fernandes ficou chocado porque mencionei em tom elogioso o despeito que Marcelo Rebelo de Sousa aplicou ao computador cem por cento português do primeiro-ministro. A minha brutalidade tem desculpa: como faço campanhas desde os 23 anos, reconheço à légua uma grande operação de propaganda. Ocasionalmente, a propaganda tem benefícios práticos — parece ser o caso — mas deve ser esvaziada mal os ministros que a ornamentaram regressem ao trabalho. As virtudes do computador Magalhães serão reconhecidas, se as tiver, pelas crianças e pelos pais. Não por uma procissão de ministros ou pelo louvor seráfico da nossa imprensa. 

3.

O Pedro Correia faz uma referência amável a este blog, que agradeço muito.