vida breve

Archive for Setembro 2008

A terra sem amos.

com 11 comentários

Por decreto de uns mangas-de-alpaca obedientes, Marcelo Rebelo de Sousa vai ter um programa tão curto como o de António Vitorino. A notícia, que é desagradável, não chega a ser trágica: pior seria se António Vitorino tivesse um programa tão longo como o de Marcelo Rebelo de Sousa.

Escrito por Luis M. Jorge

30-09-08 em 23:09

Publicado em post

O horror. A tragédia. O Manel.

com 8 comentários

Foi gira a festa do Lux. Estava lá a Cilinha, a Tansinha, a Martinha, a Renata, a Pipinha, e até avistei algumas mulheres. O tema, aparentemente, era a pedofilia. Hoje em dia ando caseiro, e só aceitei o convite porque já não ia a uma festa tão grande desde, hã, sexta-feira. Não consegui chegar muito atrasado, o que não impediu os meus amigos de se divertirem. A P. estava esplendorosa. O Fernando tinha um ar distinto, que vai perder asssim que ler estas linhas e concluir que mencionei o seu nome. Desta vez, o Manel fez um anexo com churrasco e tudo — julgo que foi a primeira ocasião em que a maior parte daquelas pessoas provou carne. Saí às cinco da manhã e cheguei a casa a estas lindas horas. Aviso já que vou apagar este post mal acordar. Se acordar.

Escrito por Luis M. Jorge

30-09-08 em 04:25

Publicado em post

Oh as casas as casas as casas

com 4 comentários

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
ela morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

Escrito por Luis M. Jorge

29-09-08 em 17:03

Publicado em post

3 notas.

with

1. 

O Rui Tavares dedica-me umas farpas suaves no seu consultório sentimental e conclui: 

prefiro que o PS não tenha a maioria absoluta, acho que o BE tem de servir para mudar as coisas e acho que o país tem a ganhar com um governo de ambos

Concordo com a primeira parte, admito a segunda e suspendo a minha descrença perante a terceira, que não vou discutir. Mas chamo a atenção para isto: começa a faltar com urgência um discurso estruturado sobre as desvantagens das maiorias absolutas, um ensaio sobre os desvios a que conduzem no regime, uma apologia do poder negociado (não a mera separação de poderes)  — sei que o Rui tem o espaço e o talento para fazer isso, oxalá tenha a vontade.  Ele que me perdoe esta tentativa um pouco canhestra de o influenciar.  

2.

O J. M. Fernandes ficou chocado porque mencionei em tom elogioso o despeito que Marcelo Rebelo de Sousa aplicou ao computador cem por cento português do primeiro-ministro. A minha brutalidade tem desculpa: como faço campanhas desde os 23 anos, reconheço à légua uma grande operação de propaganda. Ocasionalmente, a propaganda tem benefícios práticos — parece ser o caso — mas deve ser esvaziada mal os ministros que a ornamentaram regressem ao trabalho. As virtudes do computador Magalhães serão reconhecidas, se as tiver, pelas crianças e pelos pais. Não por uma procissão de ministros ou pelo louvor seráfico da nossa imprensa. 

3.

O Pedro Correia faz uma referência amável a este blog, que agradeço muito.

Escrito por Luis M. Jorge

29-09-08 em 08:52

Publicado em post

Aprender com quem sabe.

without comments

Marcelo despachou o Magalhães em 3 segundos, enquanto estava a divulgar os livros. E ainda teve tempo para dizer mal.

Escrito por Luis M. Jorge

28-09-08 em 20:31

Publicado em post

Cu-cu-ru-cu-cu, te quiero.

with

Julgo há muito tempo que a absorção do Bloco de Esquerda pelo Partido Socialista é mais ou menos inevitável. O PS precisa de alguém que substitua o decrépito Manuel Alegre na missão de emprestar algum contorno ideológico ao seu puro projecto de poder. E os quatro ou cinco bloquistas que interessam à opinião pública não desdenhariam aplicar a autoridade que lhes é concedida pela sua projecção em alguma coisa que considerem útil para eles ou para o país. 

Essa absorção nunca seria formal: trazer a terreiro o abespinhado doutor Louçã é algo que, compreensivelmente, não interessa a ninguém. O máximo que os dirigentes socialistas podem fazer é acenar-lhe com a vaga hipótese de uma aliança para o irem entretendo, enquanto não se consuma o desfalque que possivelmente os motiva. Não quero dar-me ares de oráculo, apenas transmitir aos leitores a minha perspectiva da coisa. 

Tudo isto é facilitado pela circunstância de o projecto do Bloco na esfera dos costumes estar praticamente concluido: só o casamento dos homossexuais ainda faz as vezes de causa fracturante, com todo o seu tom de artimanha folclórica para que os dois partidos encontrem alguma coisa que os distinga e não fiquem na fotografia com aquele aspecto das pessoas que não sabem onde hão-de pôr as mãos. 

Sei que tudo isto parece um pouco cínico, mas não o é mais que as conversetas sobre a Sarah Palin com que nos têm brindado ambos os lados na blogosfera. Aliás, se a lógica política desta aproximação me parece impecável, alguns os seus protagonistas não se fazem rogados: quem distingue hoje em dia o Rui Tavares de um socialista com cartão e quotas em dia? Outros talvez se demorem mais em mesuras e salamaleques, mas a proximidade de uma eleição depressa liberta os homens dos punhos de renda e lhes dá a coragem das suas convicções. 

Nem tudo será fácil — mas confesso que a manobra não me desagrada inteiramente. O país precisa de uma esquerda que seja de esquerda, e de uma direita que seja mesmo de direita. Com sorte, a absorção dos bloquistas permitirá que o projecto do PS se reencontre com a ideologia, em vez de seguir os interesses dos apparatchic — e obrigará os sociais-democratas a fazerem o mesmo. Teremos mais alternativas políticas, e não apenas estilos alternativos de exercício do governo. Agora só falta que aconteça.

Escrito por Luis M. Jorge

27-09-08 em 22:46

Publicado em post

without comments


Uma coisa que sempre me aproximou de Antonioni: gostamos da mesma mulher. Il Deserto Rosso saiu agora em português numa edição da FNAC.

Escrito por Luis M. Jorge

27-09-08 em 22:29

Publicado em post

with

Escrito por Luis M. Jorge

26-09-08 em 15:44

Publicado em post

Cu-cu-ru-cu-cu, Paloma.

without comments

Sei que não fui o único a reparar no meigo amplexo amoroso que enlaçou Francisco Louçã e José Sócrates durante o último debate na Assembleia da República. Ambos querem subjugar a Galp. Ambos sonham com a derrota do neoliberalismo. Ambos anseiam pelo melhor para o país.  

Mas se estes galanteios ficam bem ao primeiro-ministro, que é um homem bonito, pujante, e talvez namoradeiro, eles afiguram-se precoces quando protagonizados pela figurinha raquítica e azeda do dirigente bloquista. É que ao PS interessa ir arrulhando para a esquerda, mas ao Bloco talvez não faça assim tão bem morrer já de amores pelo nosso Governo. 

Os bloquistas não podem comer o bolo sem o repartirem, e não o podem repartir sem o terem. Assumir que maioria absoluta está perdida, além de leviano, é esquecer que os homens são muito inconstantes depois de conseguirem o que querem. Todas as meninas sabem isso.

Escrito por Luis M. Jorge

25-09-08 em 22:10

Publicado em post

Ghost Species

com 2 comentários

É excelente o número 102 da Granta, dedicado à escrita sobre a natureza. Aqui deixo o link para um video com Robert Macfarlane:

Ghost Species from Granta magazine on Vimeo.

Escrito por Luis M. Jorge

25-09-08 em 07:17

Publicado em post

Ainda (suspiro) o provincianismo.

com 6 comentários

Pedro diz que concorda comigo porque chamei provinciana à Palmira Silva do Cinco Dias. Na verdade falei em abstracto de eurocentrismo, o que é diferente. A discussão sobre o provincianismo, tal como foi encetada pelo Lutz, o Galamba, o João Miranda e, agora, reanimada pelo Pedro Picoito, aborrece-me. Julgo que é um exercício estéril (e, vamos lá, pouco viril), despejar quilos de filosofia sobre um nome feio antes de o atirarmos aos nossos adversários, como se tentou fazer nessa ocasião. 

O que me atrai nesta história pouco tem a ver com a visão do mundo de Palmira Silva, mas com outro fenómeno, bem mais interessante: o uso indiscriminado das eleições na América como um anestésico para a vida política em Portugal. O post do Pedro Picoito que citei ontem neste blog ironiza bem com a situação: para o Cinco Dias, os abusos do poder só interessam se ocorrerem no Alaska. A liberdade de imprensa só é ameaçada pela Fox News. E quando o Governo põe em risco algum instituto da vida democrática, é certo que estamos a falar no Governo de George W. Bush e na vida democrática dos Estados Unidos.

São estas coisas que me ocupam: a demissão do nosso centro-esquerda perante a mais vasta concentração de poderes alguma vez tentada em Portugal desde 1974. O respeitinho pressuroso a quem está por cima, disfarçado de irreverência por quem está longe. A má fé, a falta de cultura cívica de tudo isto.

Saber se a Palmira Silva é ou não é provinciana — eis um assunto que prefiro deixar à atenção urgente, dócil e alheada dos filósofos. Não é o Cinco Dias que tem um filósofo? 

Escrito por Luis M. Jorge

23-09-08 em 08:41

Publicado em post

There is something wonderful about a death,

without comments

Escrito por Luis M. Jorge

22-09-08 em 21:35

Publicado em post

Os americanos são tão maus, nº 1.

com 4 comentários

Segundo o Expresso, o nosso Primeiro-Ministro e os assessores têm o curioso hábito de telefonar para rádios e jornais quando as notícias não lhes agradam.
Deve ser mentira.
Se fosse verdade, o Cinco Dias já teria condenado a importação de práticas republicanas do Alasca.

Pedro Picoito.

Escrito por Luis M. Jorge

22-09-08 em 10:07

Publicado em post

com 2 comentários

Escrito por Luis M. Jorge

22-09-08 em 09:36

Publicado em post

Mitterrand?

com 36 comentários

Com o eurocentrismo do costume, os intelectuais da paróquia ficam intrigados quando percebem que John McCain desconhece Zapatero. Certamente ignoram uma históriazinha apócrifa de Ronald Reagan que, alertado para uma birra qualquer de François Mitterrand, terá inquirido com toda a inocência: Mitterrand? Who is she? 

Escrito por Luis M. Jorge

19-09-08 em 09:58

Publicado em post

com 2 comentários

 

Vernissage no atelier de uma decoradora amiga. Muita sangria de frutos do bosque entre trapinhos Paola Lenti e Designers Guild. Num dos grupos que se formam sempre em ocasiões destas, um pândego erguia a voz com autoridade. Há uns anos era tipo para inventar conspirações; hoje, num mundo cheio de paranóicos, prefere desmascará-las. Descobri que o aquecimento global é uma farsa. Que a gripe das aves não traz qualquer perigo ao ser humano. Que a comunidade científica é uma agremiação de malfeitores, treinada para dar cabo da economia mundial. A plateia escutava-o com a comiseração reservada habitualmente a um louco — mas o homem não era louco. Só o leitor atento de alguns blogues liberais.

Escrito por Luis M. Jorge

18-09-08 em 16:37

Publicado em post

E agora, senhores — o fatalismo.

com 10 comentários

Guterres saiu do governo a murmurar que esta corja não estava preparada para uma liderança como a sua (tinha razão, não estávamos). Desde então, a veia reformista dos socialistas parece evoluir em duas fases: na primeira fazem o que sempre fizeram, e depois — se isso não resultar — passam de imediato para a segunda fase, em que tentam convencer-nos de que mais nada resultaria.  O João Pinto e Castro, um socialista com ou sem cartão que muito estimo, mergulhou há algum tempo na segunda fase. E o Miguel Abrantes, um independente sempre prestimoso, para lá se encaminha a velocidade supersónica, movido pelas asas ligeiras do desespero intelectual. 

Neste artigo do Jornal de Negócios o João dá eco a alguns bons argumentos que David S. Landis utiliza para explicar A Riqueza e a Pobreza das Nações. O mais cruel é talvez o argumento geográfico. Podiamos citar Landis, mas citemos antes o João, que o sintetiza com talento:

Uma simples olhadela ao mapa-mundo permite-nos constatar que não há países desenvolvidos entre os trópicos, a menos que aceitemos classificar a cidade-estado de Singapura como um país. Curioso, não é verdade?

Armado deste conhecimento básico, um marciano que observe a Terra por um telescópico, poderá adivinhar: que a Argentina e o Chile são os países mais avançados da América Latina; que a África do Sul bate em nível de desenvolvimento toda a África Negra; e que, no continente australiano, a parte meridional está muito à frente da setentrional.

A origem desta correlação entre latitude e desenvolvimento radica, genericamente, no facto de os climas temperados serem mais favoráveis à exploração agrícola. Hoje, a agricultura desempenha um papel subordinado nas economias modernas; mas a indústria, primeiro, e os serviços, depois, instalaram-se perto das grandes aglomerações humanas pré-existentes, de modo que o passado continua a pesar imenso na distribuição espacial das economias contemporâneas.

É claro, porém, que a latitude não é o único factor geográfico relevante para explicar o nível de relativo de desenvolvimento económico. A abundância de recursos naturais, as condições climatéricas locais, a facilidade de comunicação e, em geral, a proximidade do mar, também contam – e muito. Segundo alguns investigadores, as condições geográficas explicam entre dois terços e três quartos das diferenças de níveis de desenvolvimento económico entre regiões.

Já percebeu aonde é que isto vai parar? Lá chegaremos:

Os economistas não gostam de reconhecer o papel decisivo da geografia na ordenação dos níveis de desenvolvimento, preferindo insistir na importância da educação, da organização e da cultura em geral como factores de crescimento. Resultará a prosperidade da instituição de atitudes e comportamentos favoráveis como a pontualidade, a capacidade de organização, a valorização do mérito, a iniciativa individual, o sentido cívico, o respeito pela lei e a curiosidade científica? Sem dúvida, mas a experiência sugere que a causalidade também funciona no sentido contrário, de modo que o impulso de fundo não poderá ser encontrado nos factores culturais.

Decididamente, o desenvolvimento não é o prémio da virtude, mas de ter a sorte de estar no sítio certo, algo muito difícil de aceitar pelos cidadãos dos países avançados que se acham de algum modo superiores – seja em capacidade de trabalho ou em inteligência – aos restantes mortais.

(…)

nada impede que Portugal se aproxime progressivamente de níveis de prosperidade típicos da Alemanha – como, de resto, tem vindo a acontecer desde há meio século – mas, a menos que ocorram catástrofes inimagináveis ou transformações tecnológicas imprevisíveis não é expectável que os ultrapasse nos próximos quinhentos anos. Quem tiver muita pressa, vai mesmo ter que emigrar.

Compreendeu agora, leitor? De acordo com o João Pinto e Castro — e também, suponho, de acordo com muitas das pessoas que mandam no país — nos próximos cinco séculos não há grande coisa a fazer. Tudo é culpa do clima, que nos puxa em direcção aos trópicos e à sordidez mais maltrapilha. Aos nossos governantes só resta manterem as coisas tal como estão, em boas mãos. E aos outros — aos apressados, aos insatisfeitos, aos ambiciosos — aponta-se a porta da rua, que é serventia da casa: podem evidentemente emigrar. Sempre é melhor que ficarmos por cá, a fazer oposição.

O raciocínio é sem dúvida elegante, e explica muitas coisas que ocorreram nestes últimos três anos ao país. Mas, ó João, ainda que mal te pergunte: onde é que entra aí o Japão? Aquele Japão, que está quase tão próximo dos trópicos como Portugal, que tem um clima mais húmido que Portugal, que é mais quente no verão, que tem pouquíssima terra cultivável, e que ainda por cima é assolado todos os anos por horrendos tufões e terramotos (sei-o por experiência)? O Japão que, valha-nos deus, é a segunda (ou terceira) economia do mundo? E se as mudanças são assim tão lentas, como explicar o crescimento extraordinário da China, da Índia ou dos Tigres Asiáticos? E se o crescimento lento é sempre inevitável sem catástrofes inimagináveis ou transformações tecnológicas imprevisíveis, porque crescem muito mais que nós, rotineiramente, alguns países do norte da Europa e da América?

Eu, que sou um espírito rude, coço a cabeça e não percebo. Falta-me talvez a fé que move montanhas, mas julgo que não estou disposto a entrar já nessa tua segunda fase. Talvez prefira insistir na importância da educação, da organização e da cultura em geral como factores de crescimento. Ou então, recordar com afecto aquela sentença do Einsten: a melhor definição de loucura é fazer tudo, uma e outra vez, da mesma maneira — e esperar um resultado diferente.

Acho que é isso. Prefiro fazer diferente.

 

NOTA: O João dá-me pancada na caixa de comentários, e promete mais. Leiam-no, sff.

Escrito por Luis M. Jorge

17-09-08 em 23:41

Publicado em post

without comments

Playboy, edição em Braille. Mais fotos aqui.

Escrito por Luis M. Jorge

17-09-08 em 15:26

Publicado em post

“Portugal: the Great Wall of Europe.”

with

O colapso dos mercados financeiros não deve inquietar-nos. As nossas grandes empresas são geridas por homens capazes, como Jorge Coelho, e em breve os novos comboios rápidos nos permitirão abandonar depressa o país. No doce recato do seu gabinete, Manuel Pinho prepara mais uma campanha de publicidade.

Escrito por Luis M. Jorge

17-09-08 em 12:06

Publicado em post

“Mas você ainda é de esquerda?”

com 22 comentários

Pessoas amigas têm-me feito esta pergunta desde que os meus posts começaram a ser citados pelo Henrique Raposo e circulam na blogosfera, digamos assim, conservadora. O tom angustiado dessas inquietações persuadiu-me a reflectir num assunto que habitualmente desdenho, e a inclusão do Vida Breve nesta lista do Arrastão honrou-me, mas também deu uma nova urgência à questão: serei mesmo de esquerda? E é razoável, para um espírito prático, ser de esquerda hoje em dia em Portugal?

Nasci na freguesia da Lapa, mas recebi desde criança ensaboadelas marxistas-leninistas mais adequadas a um jornaleiro de Grândola. A minha meninice, atormentada por longos solilóquios sobre o látego opressor das multinacionais, escoou-se entre salões de fumo repletos de estudantes universitários barbudos e uns vagos majores do Conselho da Revolução. Aos seis anos já tinha os pulmõezinhos calcinados. Aos sete decorei a dialéctica. Aos oito fui ao enterro das vítimas do Tarrafal. Aos nove dei por mim à porta do general Vasco Gonçalves, nas costas do meu pai, berrando loucamente que seria a sua muralha de aço. Ainda hoje tenho suores frios quando oiço a Ópera do Malandro. Se há pessoa neste mundo que conhece a esquerda, e a conhece por dentro, essa pessoa sou eu — e é uma chusma ingovernável, leitores. 

Dito isto, nunca renegarei os ideais que desbarataram tão eficazmente a minha infância: acredito que o Estado deve reduzir as desigualdades através das transferências sociais e dos impostos. Defendo o rendimento social de inserção, o aumento do ordenado mínimo, e não creio que a legislação laboral seja responsável pela desastrosa improdutividade do país. Sou a favor da despenalização do aborto, das quotas para mulheres em cargos políticos, e dos casamentos entre homossexuais, se eles fizerem questão.

Algumas coisas, é certo, afastam-me da esquerda por causa das idiossincrasias lusitanas: por exemplo, o papel das empresas públicas. Enquanto na Suécia estas constroem grandes marcas, como a Absolut Vodka, aqui só servem para reabilitar o engenheiro Armando Vara.No que diz respeito à política fiscal, também defendo a solução nórdica: impostos elevados sobre os rendimentos e baixos sobre as empresas — algo impensável no nosso estádio de desenvolvimento, tanto à esquerda como à direita. 

Outras petites différences têm origem numa visão peculiar da natureza humana: assim, apoio as transferências sociais para crianças, velhos, desempregados, inválidos e indigentes, mas oponho-me por princípio à concessão de subsídios a jovens adultos. Um rapaz de 23 anos, com uma vida pela frente, deve aprender a lutar pela fortuna, a glória, o amor — não por um apartamento com renda subsidiada em Mem Martins. Ao sustentar gente no início da idade activa, o Estado arrisca-se a formar gerações inteiras de inúteis.  

Mais uma divisão: o frentismo. Em Portugal parece vingar a tese de que um eleitor do PS é ideologicamente parecido com um do Bloco ou do PCP. Não creio. O PS de Sócrates nem sequer é um partido de esquerda — a demagogia mais impudente e uma arrogância de parvenu afastam-no dos velhos sonhos de democracia e lberdade de Mário Soares ou Jorge Sampaio, e acabarão por aproximá-lo de um populismo musculado, à Silvio Berlusconi. 

Podia continuar, mas suponho que respondi às duas ou três pessoas que me fizeram a pergunta: sim, sou de esquerda. Se a esquerda concorda comigo, já é outra conversa.

Escrito por Luis M. Jorge

15-09-08 em 22:09

Publicado em post

com 2 comentários

Escrito por Luis M. Jorge

14-09-08 em 13:27

Publicado em post

Chantagem.

com 2 comentários

Eu já vi o novo Arrastão e podia mostrá-lo a toda a gente com um link muito pequenino — ai podia, podia. Mas não mostro, porque sei que o Daniel Oliveira e as suas novidades se converterão este domingo à fé verdadeira, e hão-de renegar o marxismo-leninismo, as drogas leves e os brinquedos eróticos. Eu disse domingo, até ao início do programa do professor Marcelo. Nem mais um minuto.

Escrito por Luis M. Jorge

13-09-08 em 14:23

Publicado em post

American way.

com 63 comentários

Há uns dez anos, no final da minha primeira viagem aos Estados Unidos, cheguei a Greenwich Village suado, nauseabundo, de calças esfarrapadas e chanata de couro com dedo poeirento a despontar. Enquanto me preparavam o quarto, tive a rica ideia de visitar o quarteirão. Entrei por desfastio numa galeria de arte e pus-me a olhar para um quadro, que considerei logo uma homenagem muitíssimo escancarada. Afinal era uma reprodução que tinha levado uns toques do autor: um acabamento a tinta de ouro, ou coisa que o valha, sobre o rosto da Marilyn Monroe. 

Nessa altura fui interrompido por um sujeito de falinhas mansas, arzinho chique e insinuante, que desatou a pôr a obra nos píncaros — pois tinham sido feitas apenas meia-dúzia de reproduções com o tal acabamento do mestre, o que a tornava muito recomendável e um óptimo investimento. Demorei alguns minutos até perceber que o homem me queria vender um Andy Warhol. A mim, praticamente um homeless, de roupa encardida e cheiro a bedum. O capricho, descobri a tempo, custar-me-ia doze mil contos. 

Saí estonteado e entrei na Armani Exchange. Depois dos doze mil contos tudo me parecia barato, e lá acabei por comprar três ou quatro peças. A menina do balcão perguntou quem me ajudara a prová-las e eu, que tinha agido num ápice, apontei-lhe um colega que nunca vira mais gordo, pois sei que ali se ganha à percentagem. O colega veio ter comigo de olho meloso, por pura gratidão. No minuto seguinte já me convidara para um pequeno-almoço exclusivo, com clientes habituais, em que me seria revelada uma nova futilidade qualquer. 

Aquilo sim, era vida! Chegara mal enjorcado a Nova Iorque, e ao fim de meia-hora já tudo me pertencia. Em vez de ser escorraçado da Zara, recebia convites da Armani. Em vez de me darem esmolas, tentavam vender-me obras de arte quase originais. Comecei a entender a conversa sobre a terra das oportunidades. 

Obama e Sarah Palin animam a opinião esclarecida na Europa. Diz-se que nunca por cá teriamos uma senhora Palin, o que é absolutamente verdade. O problema é que também não temos um Obama. Na câmara de Lisboa há um homem honesto e trabalhador, que podia ser primeiro-ministro se não fosse escuro demais. O Lutz pode tecer encómios ao candidato negro na América, mas esqueceu-se de nos apontar os políticos de origem turca que fazem carreira política a sério na Alemanha. 

Se o presidente americano fosse eleito pelos europeus, explica ele, Obama ganharia com esmagadora maioria.

Não, não ganharia, porque nunca chegaria a candidatar-se. Obama na Europa não ultrapassava o estatuto de mascote: seria o pretinho da esquerda moderna que estudou em boas universidades e se exibe nos colóquios de sociologia para gáudio das doutorandas. 

O que nos leva à segunda questão. Ao rejeitar Palin por ser uma hockey mom provinciana e beata, a opinião pública europeia revela-nos um preconceito simétrico do que atinge as minorias raciais. O problema, reparem, não está nas suas opiniões. Palin não é mais conservadora que Romney, ou que Reagan. O problema é que a América deu protagonismo político a uma dona de casa cristã com uma catrefada de filhos e a levou tão a sério que está quase a elegê-la. Este levar a sério é o problema.  

Na Europa, pessoas como Palin ficam sempre a meio da corrida. Nunca chegam a perturbar as boas consciências, a nossa tolerância. O combate político, aqui, é anterior às campanhas. Tudo é apreciado antes do tempo, à luz dos nossos preconceitos. Mas na América, os juizos de eficácia predominam sobre o preconceito. Palin foi escolhida porque pode ganhar. Tão simples como isso. Do mesmo modo, alguém me impingiu um Warhol porque eu estava ali e podia ter dinheiro. A avaliação de um galerista português seria muitíssimo diferente. 

Na América, em grande medida, os homens são páginas em branco, enquanto aqui são resmas de texto em corpo oito sobre as quais recai o nosso escrutínio infindável. Tentem entrar andrajosos na Armani de Lisboa e verão o que vos acontece. 

A esquerda europeia gostaria de ter um Obama, sem levar com uma Palin. Mas o sistema que criou Palin é o mesmo que pode conduzir Obama à presidência. Obama não existiria, se Palin não existisse. Ambos são frutos do risco, de juizos apurados de eficácia, e de uma máquina que ignora as subtilezas culturais para levar o mais longe possível o princípio da representação. É exactamente por não compreendermos isto que não existem Obamas na Europa.

Escrito por Luis M. Jorge

07-09-08 em 10:05

Publicado em post

Buchholz.

com 3 comentários

A experiência de Eduardo Pitta é idêntica à minha:

Eu deixei de comprar na Buchholz porque quase nunca encontrava o que queria, e quando encontrava era atendido com sobranceria. Mais: como as prateleiras estavam sempre cheias de pó, era preciso ir lavar as mãos ao café da esquina. O facto de a livraria fechar cedo (18:00h) também não ajuda. O prestígio de outros tempos, fundado no stock de livros estrangeiros e numa carteira de clientes «importantes», deixou de fazer sentido com a queda da ditadura e o fim da censura. A sociedade democratizou-se, o espectro de leitores tornou-se interclassista, os horários adaptaram-se ao quotidiano, Lisboa dispõe hoje de livrarias modernas, algumas organizadas em redes de lojas (Bulhosa, Almedina, Bertrand, Ponto de Encontro, etc.), a Fnac trouxe diversidade, sofisticação e pessoal competente, os hipermercados tornaram o livro acessível aos não-consumidores de literatura, e o comércio electrónico fez o resto. Neste cenário, é difícil aceitar uma livraria estribada nos piores tiques do país dos doutores. Dois exemplos. Um dia, não encontrando nas prateleiras, perguntei por The English Auden. Poems, Essays and Dramatic Writings 1927-1939, de W. H. Auden, obra editada por Edward Mendelson (London: Faber and Faber, 1977). Resposta peremptória: «Esse livro não existe.» Isto dito sem um minuto de reflexão, com impaciência e maus modos. Mandei vir pela Amazon. 

Durante anos fui à Buchholz por necessidade, depois passava lá por despeito. Nunca fui tão maltratado por gente tão inepta numa loja, e espero que aquele buraco inóspito desapareça depressa. O problema é que as promessas arrastam-se eternamente, e daqui a uma década talvez estejamos ainda a receber abaixo-assinados lamechas para salvar a maldita livraria. Eu, se tivesse que escolher, preferiria salvar o museu do doutor Oliveira Salazar.

Escrito por Luis M. Jorge

05-09-08 em 10:46

Publicado em post

Neocolonialismo.

com 5 comentários

 

Agora que o verão chega ao fim, reparo que estão na moda as colónias de férias especializadas. Há tempos reuniram numa delas vários meninos gordos, ontem noticiaram a colónia das crianças diabéticas.

Os gordos são mais divertidos, porque rebolam aos urros pelos campos, vermelhos como almôndegas, deixando um rasto ofegante de destruição indelével na flora local. Um turista incauto poderia julgar que os velhos mamutes da Arrábida ainda se espojam na erva a comer pacotes de bolachas Oreo enquanto contemplam o mar. Uma das meninas, muito bem falante, jurou que estava ali para cuidar da sua auto-estima e fazer amigos. Parecia aliviada por conseguir aproximar-se das outras crianças sem as esmagar.

Os meninos da segunda colónia eram mais convencionais: imitavam os actores dos Morangos com Açucar (uma série para diabéticos) fazendo poses afectadas, com um olho na câmara e outro nos níveis de glicemia enquanto a repórter baixava a vozinha, cheia de comiseração.

Estas coisas, que são divertidas ao início, preocupam-me bastante quando penso melhor no assunto. Não gosto de ver miúdos gordos segregados em manadas em vez de irem para uma colónia de férias normal. Quando eu brincava no recreio da escola, todos os grupos tinham o seu badocha. Não vinha daí mal ao mundo, nem para ele nem para nós. Muitos até se tornaram porteiros de discotecas e hoje prosperam em prisão domiciliária. 

Uma daquelas pessoas que se escandalizam com futilidades, como a Maria Filomena Mónica, devia ocupar-se deste tema. As colónias de férias sempre foram lugares em que as crianças se juntam, não em que se separam. Enchê-las de miúdos gordos faz tão mal aos beliches como ao convívio democrático.

Nota posterior: nem de propósito — o Blasfémias anuncia-nos uma colónia de férias para crianças asmáticas.

Escrito por Luis M. Jorge

01-09-08 em 23:42

Publicado em post