Archive for Agosto 2008
Château Trotte Vieille, Saint Emilion Premier Grand Cru 2003.
Somewhere towards the end.
Diana Athill tem 91 anos e acaba de fazer publicar as suas memórias. O facto não seria digno de referência em circunstâncias normais. Hill foi durante meio século directora editorial da André Deutsch (os seus autores incluiram Jean Rhys e V.S. Naipaul) e, como ocorre a tantas mulheres nos meios literários, passou por mais camas que lombadas. Pouco importa.
Se estou a falar de Diana Hill neste blog é porque nenhum escritor me impressionava tanto há muito tempo. Recentemente, só Annie Proulx (outro talento tardio) me provocou este entusiasmo adolescente. Que uma mulher de 91 anos escreva deste modo deixa-me sem palavras.
Über alles in der Welt.
Os Suevos e os Vândalos tomaram o Alentejo:
Éramos felizes em Prenzlauer Berg, mas aqui podemos comer batatas fritas Lays Gourmet com a boca aberta e fazer muito barulho a chupar os nossos dedos besuntados, enquanto gritamos velhas canções do norte.
Wir werden weiter marschieren
Wenn alles in Scherben fällt,
Denn heute da hört uns Deutschland
Und morgen die ganze Welt.
Os portugueses são giros até aos dezoito anos, quando lhes crescem os pêlos do peito e ficam carecas, mas eles nunca se despem na praia porque têm os paus tão pequenos como um ligueirão. A minha prima Anna já fodeu um pescador português, por isso deve saber. Eu cá só fodia o Cristiano Ronaldo.
Wir sind das Heer vom Hakenkreuz,
Hebt hoch die roten Fahnen!
Der deutschen Arbeit wollen wir
Den Weg zur Freiheit bahnen!
A nossa roulotte está mesmo em cima de uma falésia, mas não temos medo de cair à noite porque as latas de cerveja vazias avisam-nos do perigo. Ontem pusemos um peixe inteiro por cima da fogueira e comemos muito pão. É assim que eles fazem por aqui.
Es zittern die morschen Knochen,
Der Welt vor dem roten Krieg,
Wir haben den Schrecken gebrochen,
Für uns war’s ein großer Sieg.
Ja, gostamos mesmo de Portugal!
O fardo de Henry James.

Muitos dos romances de Henry James (The Spoils of Poynton, The Golden Bowl, The Portrait of a Lady, The Wings of the Dove) — e também alguns dos seus contos — apresentam-nos um combate entre a ganância e a reticência.
Trata-se de um leitmotiv anacrónico, que talvez explique alguma impopularidade do autor: pois se a ganância como objecto literário faz todo o sentido em dois mil e oito, ninguém imagina para que servirá, hoje em dia, a reticência.
The long adieu.
Despeço-me de Lisboa enquanto o mundo a descobre. Nem eu, nem esta cidade temos algo a provar. Morreu aqui muita gente, mas ninguém me tratou mal. Só quero acordar com cheiro a algas e ouvir a água a bater. Isto não é sofisticado, nem eu sou. Os turistas de olhos esbugalhados vêem os restos do império, eu vejo os meus.
Poucas coisas são mais melancólicas que acompanhar as circunstâncias de uma ex-namorada que engravida. Interessamo-nos pelo bem estar de uma criança que não nos pertence, e vivemos, como se fossem nossas, as alegrias e as dores de um punhado de seres que irá perder-se na grande noite do mundo.
Não sei bem quantos livros sobre Veneza tenho em casa. Talvez quarenta. Venises é um dos que me interessam pela qualidade intelectual do autor. Este caderno de apontamentos inicia-se em 1906 e acaba em 71. Entre o jovem burguês que antecipa as suas férias em Itália e o velho diplomata que medita num cemitério em Trieste, ficamos a conhecer o amigo de Proust (que desejava regressar com Morand a Veneza quando terminasse a sua obra), o admirador de Diaghilev (que morreu na cidade), ou o amante contraditório de Inglaterra (que não o impediu de apoiar o Governo de Vichy ou de ser vocalmente anti-semita). São particularmente evocativas as anotações breves, em que descobrimos gente conhecida de outras paragens (Qui a décrit Reynaldo Hahn à Venise: “Un piano droit, beaucoup de fummée, un peu de musique?). Gosto desta em particular:
où, mieux qu’à Venise, peu Narcisse se contempler? Wagner, au café Quadri, écoutant sa propre musique…
O Quadri foi sempre o refúgio dos ocupantes austríacos na cidade.
Eficiência.
O primeiro-ministro é um homem notável. Mal veio de férias, ganhou uma medalha nos Jogos Olímpicos.
Boas.
Acabo de experimentar um Weingut Brundlmayer Pinot Noir e um Cabaços Reserva que há-de ser posto à venda no outono em estabelecimentos seleccionados. Não sei porquê, sinto que as minhas noites deviam ser menos agónicas. Os amigos leitores talvez não desconheçam o sentimento que se apodera de um intelectual quando defronta as hostes de Baco e as derrota num confronto hercúleo, lancinante, enquanto tenta responder a mensagens de uma divorciada atlética e desinibida. Eu sei disso porque fiz de Cyrano perante um amigo que se encontrava cercado de beldades na extremidade mais atafulhada de uma rede móvel. Digo Cyrano, mas podia dizer vinagre — pois é isso que chamam os brasileiros a quem tempera o que os outros comem. Nesta não volto a cair.
As leitoras, se ainda me sobrar alguma, perdoem o vernáculo. São duas e tal da manhã e escrevo ao correr da pena. Nem sempre é fácil ser homem, muito menos de resposta pronta. Este é um século cruel para quem foi enjeitado em menino e trabalhou na indústria têxtil desde a instrução primária, etc, etc, por isso não levem a mal. Aonde é eu que ia? Possivelmente ia para a cama.
La mort de Louis XIV.
Eu sei que o título não parece estimulante, mas reparem nisto:
La serpent qui tenta Ève, qui mena Adam par elle, et qui perdit le genre humain, est l’original dont le Duc de Noailles esta la copie la plus exacte, la plus fidèle, la plus parfaite, autant qu’un homme peut approcher des qualités d’un esprit de ce premier ordre, et du chef de tous les anges précipités du ciel.
Com alguma sorte, ainda o encontram na FNAC.
Mel das Arábias.
Acaba de abrir numa esquina da Calçada da Estrela com a rua-de-não-sei-o-quê-à-Lapa a única loja de doçaria árabe lisboeta. O lugar é refinadíssimo e os produtos recomendam-se. Conversei longamente com a proprietária sobre os lokuns de côco, água de rosas e limão, suplicando-lhe que servisse também café turco, pois é muito melhor que o nosso. Quando me fizer a vontade (sou muito persistente) passarei ali os dias até que ela me obrigue a rebolar para o Jardim da Estrela com uma caixa na mão.
Édipo.
Uma ruiva deslumbrante partilha a toalha com um quarentão. A poucos metros dali, dois miúdos de cabelo cor de cenoura enchem os baldinhos com água do mar. Mal os recipientes se aproximam, a ruiva dispara secamente um ultimato:
— Se me atirares com isso, vamos logo para casa.
— Então parem de ficar assim tão juntos — replica o mais velho dos terroristas.
Os dois adultos separam-se com pachorra. A água escorre pela areia, numa curta trégua. A criança permanece alguns segundos. Olha-os de soslaio.
Como te compreendo, rapaz.
O salazar dos pequeninos.
Ele queria uma guerra, mas saiu-lhe um armisticio. As guerras são boas, porque nos distraem do mês mais cruel — o mês em que os senhores com barrigas grandes ficam em casa, enquanto o resto do mundo acampa nas praias com os seus novos corpos musculados, experimenta restaurantes e fode sem parar. As guerras são excelentes, porque restituem o universo ao doce alinhamento da miséria com a moral.
Há-de sofrer, o João Gonçalves, enquanto a humanidade se diverte? Não seria melhor ao contrário? Nem Cristo fustigado enfrentou uma legião de banhistas sorridentes.
Talvez Putin acorde, se não estiver de férias. Talvez ainda haja salvação.
O banqueiro tresmalhado.
O socialista Silva Lopes afirmou hoje que tudo indica que a corrupção está a aumentar em Portugal. Ele também considera estranho que ninguém seja preso pela prática desse crime.
Questionado ainda sobre a privatização da Caixa Geral de Depósitos, o antigo ministro das finanças e governador do Banco de Portugal concluiu que se é para agir como age, tanto dá que a Caixa seja pública como privada.
Ai, ai… Você bem se esforça, Miguel — mas eles não encarreiram.
Diane de Poitiers.
Filha da nobreza, casou aos quinze anos com o senhor d’Anet, 39 anos mais velho e neto de Carlos VII. Diane não parece ter sido menos feliz que o seu afortunado noivo, a quem deu duas filhas e ao qual honrou com um luto perpétuo, em tons de negro e cinzento, assim que este cedeu às leis da natureza. Viúva rica, descobriu então que era uma financeira arguta, gerindo habilmente os seus bens.
Este sentido prático manifestar-se-ia quando o jovem príncipe Henrique regressou de um longo sequestro em Pavia. Diane foi encarregada de lhe mostrar as maneiras da corte e acabou por revelar-lhe, já agora, as dos lençóis.
Henrique seria coroado, confiando à amante inúmeras tarefas políticas delicadas. O casamento do rei com Catarina de Médicis não pôs em perigo a sua ligação: o próprio Papa Paulo III, enviando certa jóia famosa a Catarina de Médicis, quis também obsequiar Diane com um colar de pérolas.
Infelizmente, os ciúmes de Catarina raiaram a apoplexia quando o rei doou a Diane o château de Chenonceau. A rainha desejava-o, mas nada pôde fazer enquanto Henrique viveu. Quando este foi ferido num torneio, Catarina expulsou Diane para Chaumont — uma crueldade discutível, como podem verificar pela imagem seguinte.
Diane de Poitiers acabaria os seus dias em Anet, confortavelmente instalada, em relativa obscuridade. A sua beleza duradoura foi imortalizada por François Clouet.
Infelizmente, as mulheres do século XVIII cheiravam a bedum.
Domingo.
As mulheres do Século XVIII conversavam prodigiosamente. Uma delas, não sei se foi a Pompadour ou a Madame de Stael, conseguiu manter vários homens em suspenso algumas horas enquanto dissertava sobre as perfeições do seu braço esquerdo.
Como seria o toque dessas mulheres? Clínico a princípio, por causa das convenções morais: talvez examinassem um sinal ou um queixume aos seus protegidos com a intimidade de uma irmã. A evolução para um registo menos fraternal devia ser instantãnea, porque os beijos e as carícias faziam parte da linguagem diplomática — e ninguém se imaginava a fazer diplomacia com um esposo.
Deviam ter um olhar límpido e atento, pois não se usavam os transportes lânguidos do romantismo. Era mulheres fortes, mal habituadas à rejeição: talvez a encarassem como uma fraqueza um pouco ridícula do seu interlocutor, como uma doença. Em todo o caso, sabiam perdoar.
Não existem mistérios. A verdade é uma coisa simples, geralmente inútil.
Brasserie Flo Lisboa.
Tem-se escrito muita coisa sobre o novo restaurante da Avenida da Liberdade. O meu veredicto é simples: comer sempre as ostras, nunca a sobremesa. Não pagar.
Cartier-Bresson
Este é um dos raros documentos em que vemos Henri Cartier-Bresson em acção, nas ruas.
Ser feliz.
Graças à internet, uma parte significativa da humanidade pode agora dirigir-se aos da sua espécie com sentenciosa bonomia. As velhas tias que pontificavam na nossa adolescência têm hoje em dia trinta e seis anos e uma inclinação espiritual. Coleccionam pedras, cheiram a gato e engordam com alimentos biológicos ultracongelados. Sempre achei graça a esta ideia de que uma recepcionista do Ohio me ensinaria a ser feliz. Espero que uma vida sexual variada faça parte da receita.
Quem lê alguns psicólogos pode ficar com a sensação de que a felicidade se atinge graças a uma anemia competitiva, em que o pouco que temos nos satisfaz. Não é essa a minha experiência. As pessoas mais felizes que encontrei viviam em situação de privilégio: ou eram belas, ou ricas, ou particularmente bem sucedidas. As mais velhas tinham uma saúde de ferro, o que é sem dúvida o caminho para a felicidade aos noventa. As mais pobres compensavam-se com uma arca frigorífica maior que a da vizinha. (Para nossa sorte, as compensações são inúmeras). Não creio que a beleza, o dinheiro ou o sucesso tornem as pessoas felizes. Mas protegem, em camadas, a integridade do nosso bem estar.
Afinal aquela recepcionista tinha razão: isto é divertido.
Bruce Gilden
Obama.
Como seria de esperar, a tourné europeia não ajudou Barack Obama. Ele mantém a vantagem muito ténue sobre o candidato republicano, mas começou a perdê-la em alguns Estados importantes. Os analistas falam de um tecto nas intenções de voto, que o negro não consegue ultrapassar.
O brilharete em Berlim provou que Obama consegue relacionar-se com os grandes deste mundo sem se apequenar, mas foi contaminado por um falso idealismo que é o esqueleto no armário desta candidatura.
A economia está a seu favor, o Iraque nem por isso. E McCain não é um homem qualquer.
Steve McCurry (em Lisboa)
Martin Parr.
A outra pergunta.
Fui ao Insurgente procurar novos artigos da dona Patrícia Lança sobre os malefícios do fisting e do sexo anal e encontrei isto:
Caso vença sem maioria absoluta, o PSD deve coligar-se com o CDS-PP?
Nunca sei porque dizem que a direita é pessimista — a nossa parece-me sempre delirante. Não se trata apenas de admitir a contrario a hipótese de o PSD vencer as eleições com maioria absoluta; trata-se também de julgar que alguém no seu juizo perfeito daria uma segunda hipótese ao ex-ministro Paulo Portas. O que nos faltava agora, o escândalo dos infantários do Estado? O Banco Espírito Santo deseja confiscar o leitinho aos bebés da Função Pública? Podem comer croissants?
Eis o que me preocupa, leitores. Eu lembro-me bem da última vez que o André Azedo Alves se entusiasmou tanto sem ver um cilício. Foi no referendo à despenalização do aborto. E ele perdeu.
Ciganada.
Estava à espera que alguém do Cinco Dias deixasse de entoar loas àquele tipo extraordinário do Governo e pusesse em linha um texto magnífico que o Rui Tavares fez publicar ontem no seu pasquim indigente. Eis um extracto:
O preconceito anticigano agarra-se a tudo e pode fugir ao controlo. Uma sondagem no Expresso dá os ciganos como a comunidade mais detestada no país. No mesmo jornal, Miguel Sousa Tavares prega um sermão aos líderes da comunidade para que abandonem uma vida de crime e tráfico de droga. E claro: Paulo Portas logo veio sugerir que há um Portugal que trabalha para que os ciganos vivam do rendimento mínimo.
Neste país onde os bancos “arredondaram” os empréstimos à habitação e meteram ao bolso uma média de cinco mil euros por família, os ciganos são ladrões. Neste país onde a Operação Furacão encontrou fraude empresarial de grande escala mas não chegará a lado nenhum, os ciganos é que são os dissimulados. Neste país onde Paulo Portas ainda não explicou quem é o famoso Jacinto Leite Capelo Rego que generosamente deu dinheiro ao seu partido (nem explicou o “caso sobreiros”, nem o “caso submarinos”, nem o “caso casino”), os ciganos é que são os malandros.
Podem ler o resto no Público. Não, não podem: mas está aqui.
Primeiro, o José Manuel Fernandes. Depois os descendentes até à quinta geração.
Os comentadores socialistas têm uma noção curiosa de informação isenta. Nenhum deles estranhou o monólogo do primeiro-ministro que foi exibido no dia seguinte à entrevista com a nova líder do PSD. Também não os vi protestarem contra as barrinhas com frases em movimento que a televisão pública usa para compensar as trôpegas iniciativas da oposição com doces referências às amenidades da West Coast, à saúde invejável do bom ministro Manuel Pinho ou à memória poderosíssima do computador Magalhães.
Na verdade, a televisão já não preocupa os socialistas. Nem a do Estado, porque está bem entregue, nem a privada, porque se encontra suspensa no processo de atribuição de um quinto canal generalista, cujo desfecho poderá coincidir (coincidência é mesmo a melhor palavra) com a altura das próximas legislativas. O doutor Balsemão e os seus amigos da TVI têm bons motivos para ficarem quietos até 2009.
O que atormenta, então, a blogosfera de Sócrates? Vamos dar-lhe a palavra, para que não se sinta ainda mais amordaçada. Eis uma pequena selecção dos últimos dias:
- Miguel Abrantes: Patrão fora, dia santo na loja;
- Patrão fora, dia santo na loja (até ter ligado a net)
- Vicente Jorge Silva (citado pelo prestimoso Miguel Abrantes): Zé Manel, só escreves isso porque tens as costas quentes.
- Fernanda Câncio: O jornalismo de JPP;
- O jornalismo de josé manuel fernandes;
Qual é a coisa qual é ela? Aparentemente, é um jornal minúsculo, um pasquim indigente, que as mesmas almas acusam há muito de estar em eterna decadência. Pouco importa. Enquanto houver uma réstea de altivez neste país, enquanto existir alguém que não se arremesse como uma gelatina aos importantes pés do nosso primeiro-ministro, lá estarão os seus protectores em busca de uma cruzada ou de uma conspiração, com o dedinho trémulo e a vozinha embargada, a clamar por uma autoridade reguladora.
Mas existirá mesmo uma cruzada? Parece que há. Aqui e aqui explica-se um pouco melhor em que consiste. Eu não sei, porque sou esperto e permaneço neutral como a Suiça. Tanto gosto da Líbia como do governo de Angola — e onde houver um jornal de referência, não mordo a mão que me há-de comer. Não é assim que se diz?








