Archive for Julho 2008
Viajar.
Há três anos visitei a Lapónia. Sai de Helsínquia num comboio que percorreu durante doze horas florestas de coníferas recortadas por uma luz cinzenta, esbatida, vagamente sepulcral. Por vezes irrompia entre os abetos a superfície gélida de um lago; aqui e acolá brotavam arbustos vermelhos em carreiros sinuosos e imemoriais. Nenhuma pessoa ou animal interrompeu essa peregrinação fantasmagórica, nenhum ruido brusco se atravessou no compasso embalador da carruagem. Uma estranha hipnose assolou os passageiros até desembocarmos, estonteados, em Rovaniemi — a capital da província, a maior cidade do Norte da Finlândia. E foi uma enorme desilusão.
Meia-dúzia de prédios mal atamancados erguiam-se em redor de um viaduto, três boutiques feias e uma farmácia. A única cadeia de hamburgueres finlandesa marcava presença num barracão cheio de pinguços. Um cartaz publicitário anunciava que era ali, ó coisa extraordinária, a terra do Pai Natal. Talvez o velho das barbas brancas se escondesse num daqueles bairros sociais com vista para o semáforo. Ou então, meu deus, sempre era verdade que não existia.
Afinal, Rovaniemi não foi assim tão mau. Há uma floresta escura onde aquela gente do norte se passeia a sós à procura de alces para o jantar. Dizem que os lobos vêm comer à nossa mão (ou a nossa mão, não percebi) e posso asseverar que o rio é agradável quando está descongelado. Além disso é fácil estabelecer relações empáticas com os autóctones, que acabam invariavelmente em coma alcóolico.
Mas isso não responde à pergunta: porque são as desilusões de viagem tão frequentes e amargas? Porque é tão difícil, para um viajante, ficar parado? Porque temos tanta pressa de ir embora, em vez de procurarmos o conforto nos lugares que descobrimos? Pensei no assunto durante muitos anos, até encontrar a resposta neste poema de Constantino Cavafis, traduzido por Jorge de Sena:
Ítaca
Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria- nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras: coral e madrepérola,
âmbar e marfim, e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto, para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito, que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha, rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora,
senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
Capice? Não é o destino, é a viagem.
O Erro de Dostoievsky.
Todos os anos começam de modo semelhante. Ao repique das badaladas da meia-noite, engolimos com solenidade as doze passas de uva e prometemos a nós próprios que a partir de Janeiro, sem falta, seremos magros, calmos, poupados, acessíveis, desportistas, dedicados, trabalhadores, estudiosos, atilados, saudáveis, assertivos, fiéis, abstémios e não-fumadores.
Às fraquezas que assolam a humanidade responderemos com uma vontade férrea e um auto-domínio imperturbável. A nossa vida, a partir daquele momento, será uma linha recta iluminada por um sentido de missão, uma causa nobre, um propósito.
O escritor Dostoievsky também foi vítima dessa amável fantasia. Aos vinte e oito anos condenaram-no à morte por pertencer a um grupúsculo liberal. Nas masmorras do Czar, aguardando a execução, ele prometeu a si mesmo que, se por milagre se livrasse da sentença, teria uma vida muito diferente. Mais sã. Mais tranquila e virtuosa.
Já em frente ao pelotão, de olhos vendados, ele escutou o galope de um cavalo a aproximar-se. Com infinito alívio, ouviu a ordem de comutação: enfrentaria a Sibéria, mas não a morte. As suas preces eram atendidas.
A partir desse momento, confessa-nos, ele esqueceu todas as promessas de regeneração: nos anos seguintes foi arrastado para uma existência tão desregrada, pródiga e dissoluta como aquela que conhecera antes. Nem a possibilidade do extermínio fora suficiente para o regenerar. Porquê?
Estudos recentes concluem que a força de vontade é um músculo mental. Um recurso limitado, que pode ser fortalecido pela prática, ou por coisas tão diferentes como alguns alimentos, o riso e a evocação de memórias poderosas.
O Dr. Baumeister, da Universidade da Florida, encontrou uma relação proporcional entre o auto-controlo e a manutenção dos níveis de glucose no organismo. Isso explica porque é que as dietas resultam melhor quando comemos seis refeições por dia. Põr em ordem os seus valores de curto e de longo prazo também ajuda: um bikini no Verão ou um chocolate agora? Pense à distância, e lá encontrará a sua força de vontade.
Finalmente, não queira tudo ao mesmo tempo. Alguns estudiosos sugerem que se abdicar de coisas pequenas e for aumentando, a pouco e pouco, os sacríficios, atingirá mais depressa as suas ambições.
Por isso, já sabe. Esqueça as doze passas do início do ano — escolha só uma, e vá até ao fim.
De corpo e alma.
Em Setembro de 1197, o cruzado Henrique de Champagne estava a passar as tropas em revista a partir de uma janela do seu palácio em Acre quando a delegação de Pisa entrou na sala. O comandante virou-se para a cumprimentar e deu um passo atrás, por inadvertência. O seu fiel anão Escarlate agarrou-se às roupas do conde, tentando segurá-lo, mas já era muito tarde: unidos um ao outro, estatelaram-se ambos no terreiro. Escarlate partiu uma perna, Henrique faleceu.
Moral da história: o anão tinha um corpo pequeno, mas uma alma grande.
Hoje em dia não compreendemos estas coisas. Tendemos a acreditar, como o escultor Auguste Rodin, que o corpo é o espelho da alma, e que daí provém a sua beleza. Mas se Rodin tivesse nascido anão talvez não divagasse com tanto entusiasmo. A triste verdade é que raramente possuimos o corpo que merecemos. Kant, o mais nobre dos filósofos, era corcunda, Talleyrand, o mais sagaz dos diplomatas, tinha o pé boto. Edward Gibbon, o maior dos historiadores, era também o maior dos historiadores.
O mundo contemporâneo ensina-nos que devemos ser ricos, bonitos e jovens até que a nossa alma saciada se evapore higienicamente numa bela tarde de primavera. Tudo o que não caiba neste cenário idílico são más notícias. Tentamos dominar o corpo, submetê-lo às nossas aspirações, mas intimamente sabemos que mais tarde ou mais cedo ele vai rebelar-se contra nós. Que fazer?
Um peeling? Uma drenagem linfática? Uma dermolipectomia? Talvez não seja preciso. A nossa paz de espírito valerá muito pouco se depender apenas do olhar dos outros. Todos os dias há pessoas feias e doentes que realizam grandes obras, enfrentam os seus limites e encontram a fortuna, a glória ou o amor. Muitas procuram a dignidade, em vez da perfeição: a vantagem de uma coisa sobre a outra é que a segunda não existe.
Nem tudo está ao nosso alcance. Podemos amar alguém, mas não podemos ser seus donos. Ou querer uma vida longa, que se apaga abruptamente. Mas resta-nos sempre o consolo de enfrentarmos o mundo com os olhos bem abertos, experimentar coisas novas, procurar o prazer, ou até servir o próximo como fez o anão do conde de Champagne.
Em todos os corpos, mesmo os mais débeis, há um rastilho de coisas sublimes. Por isso, já sabe: se o seu corpo fraquejar, lembre-se do Escarlate.