Archive for Janeiro 2008
No templo (2): o foco.
As más notícias começaram em Abril de 2005. O novo papa escolhia para si o nome de Bento, em homenagem à extraordinária figura do grande “Patriarca do Monasticismo Ocidental”, S. Bento de Nórcia, co-patrono da Europa, fundador dos Beneditinos, com enormes responsabilidades na cristianização do continente. Havia, portanto, um alvo — e esse alvo, obviamente, éramos nós.
O anúncio não fez grande mossa. Acostumada às toscas atoardas de Karol Wojtyla, a Europa galante encolhia os ombros com desdém. Em breve iria arrepender-se.
(Continua).
No templo (1).
Seria fácil descrever o longo pontificado de João Paulo II como um combate entre a civilização e a barbárie.
À civilização — piedosamente agnóstica (para não dizer impiedosamente ateia), fina, centrada no século, permeável à moda, seduzida pelo corpo, viciada numa concepção bastante tagarela da beleza — opunham-se os hunos da Polónia, que iam descalços para Fátima com os bracinhos em coto, engoliam repolho ao almoço e berravam vade retro à passagem de um homossexual (exercício aparentemente infrutífero, se pensarmos nos vários escândalos que sacudiram o mandato).
A civilização ocupava-se de assuntos importantes, como a legalização das drogas leves ou a defesa do cinema francês. Os bárbaros, por seu turno, brandiam tremulamente o crucifixo contra as assassinas de fetos mal formados e prometiam labaredas a quem separasse o matrimónio do prazer (como se as duas coisas, aqui entre nós, alguma vez tivessem andado misturadas).
A civilização era portanto apolínea, cínica, blasé — enquanto a barbárie se mostrava tão ruidosa e apopléctica como o João Gonçalves num dia mau.
Até que chegou Ratzinger, e o nosso sossego acabou.
(Continua)
Ah, sim, as “eleições”.
Tive a felicidade de visitar Cuba um ano antes de conhecer os ressabiados de Miami. A viagem foi horrenda, por motivos pessoais. No entanto, gostei muito daquele povo, lamentei profundamente o seu regime e regressei chocado com os imbecis que por aqui defendem Fidel sem terem posto os pés nas Caraíbas. Não é que seja necessário atravessar um país para podermos falar a seu respeito, mas devia exigir-se algum pudor a quem defende encarniçadamente uma ditadura. E Cuba é uma ditadura: vi pessoas a serem presas após conversarem comigo.
As inanidades que metade da nossa esquerda adora papaguear a respeito da educação e da medicina cubanas também não valem um caracol: os médicos que por lá conheci andavam a puxar riquexós. O pior é que para todos os falhanços de Fidel, para todos os seus crimes, existe uma desculpa sacramental: o bloqueio. O bloqueio americano a Cuba tem as costas mais largas que o fardo do homem branco em África. Está sempre na ponta da lingua de quem não gosta que lhe atrapalhem os passos ou alterem o regime.
E porquê alterá-lo? Para os que estão lá em cima, a vida deve ser um assunto glorioso: bom tabaco, mulheres calientes, excelentes daiquiris e praias encantadoras. Até os automóveis de quem interessa são novos em folha. Cuba, um país miserável, com políticos torpes, é uma espécie de paraíso para quem tem a bolsa recheada e amigos no partido. Nisso, em nada se distingue de Portugal.
Ok, talvez nas mulheres.
1943-2008.
Obrigatório.
A recomendação é tardia, mas não menos intensa: o José Mário Silva tem um blog admirável.
Blogs estrangeiros.
Preparo outra viagem ao Oriente daqui a alguns (ainda não sei quantos) meses, por isso tenho consultado sites da região. Também vos deixo coisas que já costumava ler. A partir de hoje penso colocar aqui listas de páginas e de blogs interessantes com alguma periodicidade.
Pureland – Views from a Japanese Mountainside
Countdown to Beijing – a Reuters na China.
Roadfood – os restaurantes de estrada na América.
Mimi in New York – já não é stripper, mas ainda escreve bem.
Kasumin Yorosiku – sobre caixinhas de merenda.
Global Voices – o blog na “era da globalização”.
Tokyo Mango – como o nome indica.
Tokyo Times – quando me quero sentir nostálgico.
Pink Tentacle – não consigo explicar.
Há gente com sonhos esquisitos. Eu sonho escrever livros de viagens a tempo inteiro sem me arruinar. Ainda não descobri como se faz.
A causa.
Após leitura atenta dos jornais, concluo que Portugal não tem um problema de saúde, de justiça ou de produtividade. O grande obstáculo ao desenvolvimento do país reside na infeliz circunstância de a sua classe média alta já não poder acender um Lancero à mesa do café.
Outra vez o marketing político, por João Pinto e Castro.
Parafraseando a senhora Clinton, vou continuar esta conversa com o João daqui a um dia ou dois. O nosso desacordo não é profundo, mas talvez se revele interessante.
a)
Procuramos a verdade e encontramos a morte. Vigiamos os sinais do nosso corpo entre uma palpitação, um espasmo, uma vertigem. Perdemos, a pouco e pouco, a alegria. Consolamo-nos com Goethe: o homem desperto ri de quase tudo, o inteligente de quase nada. Há sempre um génio à mão para nos garantir que o desamparo não tem nada de pessoal. O mundo não tem nada de pessoal.
2008
Que sentiu Jonas quando a baleia o vomitou na praia?
A bíblia não esclarece, mas podemos imaginar que após três dias entre os limos e a putrefacção, três dias em que escutara apenas as gaivotas e o ruído cavo dos espiráculos soltando golfadas de ar, lhe foi concedido um breve alívio antes de ir pregar a ruína de Nínive.
Tal como Jonas, também eu agradeço esta meia-hora entre o sol e o mar — ainda perto das algas, com água pelos pés, mas de olhos pousados na extensa planície em que se ergue, recortada, uma cidade tão grande que são necessários três dias para a percorrer.
Nínive, Nínive, cá vamos nós. Espero que o Senhor não me desiluda.






