vida breve

Archive for Dezembro 2007

Prendas.

with

1. Graças à intervenção benemérita da Nossa Senhora, Paulo Portas encontrou um Vasco Pulido Valente no seu sapatinho este Natal.

2. Mais sorte tiveram os accionistas do BCP, que perderam um presidente mas ganharam um Governo.

3. Os pategos da Lourinhã, que hoje se manifestam contra o encerramento de um posto médico, recebem uma linda campanha, assinada por um fotógrafo da moda, em que se jura que vicejam na West Coast da Europa.

4. Quanto a Luis Filipe Menezes, ainda não obteve um Estado para desmantelar. Mas resta-lhe o consolo de poder exercitar-se com o seu partido até ao Natal do próximo ano.

Escrito por Luis M. Jorge

28-12-07 em 21:35

Publicado em Sem categoria

Débil.

com 6 comentários

Passei o Natal nas berças, onde fui tratado como um ganso do Périgord. Entre convocatórias para comer mais uma rabanada ou mais uma filhó, cheguei a trancar a porta do quarto durante a noite, temendo que não resistissem a extrair o meu figado intumescido para confeccionar mais um pâté

Felizmente caí à cama durante um dia e meio, conseguindo saltar várias refeições. Agora vivo de comprimidos, como sempre sonhei. Não garanto que esteja na posse de todas as minhas faculdades, mas podíamos dizer o mesmo de vários membros do Governo. A solução, já se sabe, passa por cultivar uma certa gravitas.

(Onde terei posto aquele livrinho do Manuel Alegre?)

Escrito por Luis M. Jorge

28-12-07 em 15:08

Publicado em Sem categoria

com 3 comentários

snow_fog.jpg

Escrito por Luis M. Jorge

23-12-07 em 07:06

Publicado em Sem categoria

Quod scripsi (3).

without comments

41919nzrscl_ss500_.jpg

Muita tensão pode originar um livro de culto, mas não um clássico. Pouca tensão pode originar um sucesso, mas não um clássico.

Escrito por Luis M. Jorge

20-12-07 em 09:29

Publicado em Sem categoria

Quod scripsi (2).

com 3 comentários

 
O que gera um clássico? Algo a que Bloom chama estranheza, mas eu prefiro a palavra tensão. Porque a tensão, ao contrário da estranheza, é mensurável.

Escrito por Luis M. Jorge

20-12-07 em 09:14

Publicado em Sem categoria

Quod scripsi (1).

with

A literatura portuguesa, que tem ao seu dispor temas como o ressentimento e os maus hábitos, inclina-se para as boas intenções e o mau sexo.

Escrito por Luis M. Jorge

20-12-07 em 09:03

Publicado em Sem categoria

O Ano da Todi.

com 2 comentários

guard214.jpg

Portugal atravessou-se na história Veneziana em duas ocasiões. A primeira, quando Vasco da Gama percorreu o caminho marítimo para a Índia, sujeitando a república a uma humilhante decadência comercial. A segunda, quando Luisa Todi lá foi cantar em finais de 1791. Ainda hoje os livros referem o extraordinário sucesso da mezzo-soprano. Os seus admiradores fizeram gravar um retrato da diva, sob o qual colocaram a legenda: “Em Veneza, no ano da Todi”. Nos tempos de glória da Serenissima, a inscrição teria sido bem diferente: “Em Veneza, no ano de Lepanto” (annus victoriae navalis).

Depois da Todi, a cidade já estava pronta para Napoleão.

Escrito por Luis M. Jorge

18-12-07 em 18:31

Publicado em Sem categoria

Tal e qual um restaurante: nem faltavam os três pratos.

com 22 comentários

No mundo perfeito do Lutz, ir às putas era um exercício de amor ao próximo concebido aos domingos nas melhores agremiações luteranas: as espanholadas, as chuvinhas douradas e os botõezinhos de rosa seriam praticados com gosto e com brio, por competentes profissionais do sexo merecedoras do respeito da nossa sociedade.

O leitor sente-se murchar perante tanta virtude? Não desanime: para lá dos eufemismos imaculados, o nosso amigo também possui uma lista razoável de metáforas gastronómicas. Assim, um lupanar seria uma espécie de restaurante em que o gourmet consciencioso, deixando a sua refeição caseira a lavar a roupa e a cuidar dos filhos, poderia ir saborear um petisco diferente, talvez de cabelo ruivo, rabo grande, mamas pela cintura e botas de montar.

Vale a pena ler o post e os comentários, a que nem sequer falta um elogio ao trabalho cristão nas palavras jubilosas do beato Josemaria Escrivá.

Escrito por Luis M. Jorge

18-12-07 em 02:05

Publicado em Sem categoria

O lugar natural.

com 3 comentários

Ao ocupar teimosamente o seu lugar natural (centrista, laico, dirigista), o PS de Sócrates parece ter empurrado os partidos da oposição para uma consciência mais profunda do seu posicionamento (uma palavra horrenda, mas correcta).

Assim, o Partido Popular descobriu finalmente os dois temas que ainda podem salvá-lo: segurança e impostos. Os Comunistas anularam, como lhes competia, os seus reformadores e continuam a oferecer estratégias de resistência a um público mais velho. Até o recente silêncio do Bloco parece intencional: em breve, o PS necessitará de uma esquerda bem comportada que substitua Manuel Alegre.

Resta o PSD, tão extraviado como antes. A tragédia do PSD é simples: trata-se de um partido liberal que não acredita no liberalismo. Ao contrário de Sá Carneiro, os seus líderes nos últimos vinte anos preferiram ser centristas (como Cavaco) ou o populistas (como Santana e Menezes). As bases do PSD habituaram-se a sacrificar princípios para alcançarem vitórias rápidas. Agora precisam de abandonar a ilusão de uma vitória rápida para reencontrarem os seus princípios.

O Partido Social-Democrata tem que regressar a Sá Carneiro.

Escrito por Luis M. Jorge

17-12-07 em 07:53

Publicado em Sem categoria

A tia preta.

com 8 comentários

Hoje passei a tarde num apartamento de três divisões no Bairro da Flamenga, em Chelas, junto ao parque da Bela Vista. É aí que a dona Lizete Baessa (a Tia Preta) acolhe há quatorze anos as crianças da rua quando regressam da escola. Hoje em dia são oito, mas já foram mais.

Dizer que o ambiente é pobre seria fazer uma injustiça à pobreza: um dos miúdos partilha a sua casa com vinte e seis familiares. Outro tentou cortar os pulsos após uma altercação doméstica. A dona Lizete serve-lhes o lanche, ajuda-os a estudar e vai com eles ao parque quando o tempo fica bom.

O Fábio quer ser futebolista, a Rute enfermeira e o André vai estudar informática. Há pouco tempo, a sua Tia Preta começou a fazer quimioterapia. Isso em nada perturba a alegria da casa, embora esgote a proprietária, a quem não encontrei um único vestígio de auto-comiseração.

Escrito por Luis M. Jorge

11-12-07 em 22:51

Publicado em Sem categoria

Bom, está bem, vamos lá: um pouco de classe.

com 4 comentários

800px-eggs_benedict.jpg

Ontem, um risotto de alcachofras aparatosamente gorado recordou-me esta história de Somerset Maugham. O escritor vivia em Cap Ferrat, quando a Riviera Francesa não era menos remota que a tribo dos Kukuanas nas margens do rio Pongola.

Ainda havia vacas no Mónaco — e Cannes, de tão pobre, chegava a parecer suportável. Maugham foi dos primeiros a acolher duquesas quase genuínas na sua Villa Mauresque, e um dos grandes responsáveis por tudo aquilo em que a região se viria a transformar (pobre imbecil).

Os hóspedes ficavam maravilhados com a sua arte de bem receber. É certo que o escritor gaguejava horrivelmente, mas isso até emprestava algum suspense às frases assassinas. Tinha espírito, graça, veneno — e uma excelente cozinheira. Ali, no meio do mato, as herdeiras americanas deliciavam-se com iguarias que comoveriam Henry James, se a carcaça de Henry James não estivesse enterrada em Massachusetts.

Um belo dia, ao pequeno-almoço, uma dessas mulheres perguntou a Maugham como conseguira fazer com que os franceses, sempre tão selvagens, aprendessem a cozinhar. O autor de Cakes and Ale retorquiu-lhe, tipicamente, com a verdade:

— Pura prática, minha amiga. Antes de você chegar, comi esses eggs Benedict durante quinze dias.

Encontram a receita aqui.

Escrito por Luis M. Jorge

11-12-07 em 12:28

Publicado em Sem categoria

A cimeira.

com 6 comentários

2_old_ladies470_470x300.jpg
— É tão bonito que estes pretinhos tão simpáticos tenham encontrado um local para poderem conversar!

Escrito por Luis M. Jorge

08-12-07 em 14:23

Publicado em Sem categoria

Quem?

with

romney_landing.jpg

Há tempos, Vasco Pulido Valente anunciava com a fanfarra habitual que, por Obama ser da cor errada e Clinton do sexo fraco, os eleitores americanos, em 2008, dariam a vitória a Mitt Romney. Talvez. No entanto eu gostaria de recordar ao leitor um pormenor: Mitt Romney é mórmon.

A Igreja Mórmon provoca alergias à América desde que o profeta Joseph Smith começou a receber visitas do anjo Moroni em 1823. O anjo obrigou-o a escrever o Livro do Mórmon, onde se revela a história de uma antiga civilização americana e se afirma que a igreja estabelecida por Jesus Cristo na Palestina se deixou corromper por volta do século VI, dando lugar a 1500 anos de apostasia.

Nos primeiros tempos, este novo culto foi obrigado a fugir de Nova Iorque para o Ohio, o Missouri, o Illinois, e finalmente a procurar a reclusão do Utah. No Missouri, o Governador publicou um édito que ordenava o “extermínio ou a expulsão dos mórmons” (e alguns foram mesmo massacrados após a sua publicação). No Illinois, a seita destruiu um jornal que a criticava. Joseph Smith foi preso e depois, perante a indiferença da polícia, uma multidão endoidecida irrompeu nos calabouços, trucidando-o.

Para sobreviver, esta religião teve de se isolar e também de suavizar, não as suas crenças, mas o que delas vai revelando ao povo americano. Os mórmons praticam a poligamia e baptizam os mortos. Possuem a sua própria assistência social e crescem à mesma velocidade alucinante que o cristianismo primitivo, gerando o mesmo tipo de anti-corpos.

O que passou pela cabeça de Vasco Pulido Valente para ele achar que o Partido Republicano, ou a América, algum dia entregariam a presidência da república a um mórmon?

Escrito por Luis M. Jorge

06-12-07 em 15:25

Publicado em Sem categoria

Ainda mais racional, professor Arroja.

with

3433164.jpgMarcel Proust, homossexual e judeu. Devemos permitir que eles se reproduzam?

Afirma o professor Pedro Arroja:

no dia em que os nossos antepassados tivessem aceite a homossexualidade como regra geral do comportamento humano teria sido o dia em que a sua cultura – ou, mais geralmente, a humanidade – teria iniciado o caminho para a sua própria extinção. A atitude racional em relação à homossexualidade está, portanto, do lado do preconceito, que implica a sua rejeição como regra geral de comportamento – não a sua aceitação.

Julgo que comprendo os seus argumentos, caro amigo. Os homossexuais não podem procriar, por isso devemos impedir que eles condenem a nossa espécie (particularmente esta magnífica subespécie lusitana) ao acabrunhamento e à extinção.

No entanto, após analisar os seus escritos confesso que ainda me resta uma dúvida: e se esses homossexuais, além de tudo, também forem judeus? Um preconceito saudável não anulará o outro? Quero eu dizer: o facto de os judeus não poderem procriar, com todos os benefícios que daí decorrem, não compensará a nossa espécie, digamos assim, dos perigos que esta comunidade em particular causaria ao mundo se contribuísse para a renovação demográfica?

Deveremos encorajar todos os judeus a tornarem-se homossexuais? É um tema que deixo, respeitosamente, à sua consideração.

Escrito por Luis M. Jorge

04-12-07 em 08:48

Publicado em Sem categoria

com 26 comentários

Caro Tiago:

O primeiro dever de um polemista é o de manter a cabeça sempre fria. (São os nossos alvos quem deve perdê-la, não nós). O segundo dever de um polemista é o de concluir aquilo que começar.

Não branda uma arma sem dispará-la, não a dispare sem atingir, não atinja sem matar — um adversário ferido é mais perigoso que um adversário intacto.

A única medida de um polemista é a eficácia, o seu único critério o resultado. Procure, vasculhando entre as chamas, uma pureza absolutamente destrutiva, isenta de cálculo mas cerebral.

Ou seja, Tiago, faça tudo ao contrário. E boa sorte.

Escrito por Luis M. Jorge

03-12-07 em 01:22

Publicado em Sem categoria

Adivinha.

com 12 comentários

planven.jpg 

Esta tarde, antes de chegar a Lisboa, comecei a traduzir por diversão os primeiros parágrafos de um livro que me apaixona. Dou alvíssaras a quem adivinhar o autor, a obra e o volume: 

Nos antigos dias de viagem que nunca voltarão, em que a distância não se vencia sem esforço, mas em que esse esforço era recompensado, em parte, pelo efeito da pesquisa deliberada dos países em que a jornada se fazia, e em parte pela alegria dos fins de tarde, quando do topo da última colina a que ascendera, o viajante contemplava a aldeia tranquila em que iria repousar, dispersa entre pastos ao redor de um ribeiro no fundo do vale; ou em que, da curva há muito aguardada na poeirenta perspectiva de um carreiro, ele via, pela primeira vez, as torres de alguma cidade famosa, desmaiada pelos raios do pôr-do-sol — horas de tranquilo e absorto prazer, para o qual a lufa-lufa da chegada a uma estação de caminhos-de-ferro talvez não seja sempre, ou para todos os homens, um equivalente — nesses dias, dizia eu, em que havia algo mais a antecipar e a recordar no primeiro aspecto de cada sucessiva paragem do que um novo telhado envidraçado ou uma viga de ferro, existiam poucos momentos cuja recordação fosse mais afectuosamente estimada pelo viajante do que aquele que,  como tentei descrever no fecho do último capítulo, o punha à vista de Veneza, enquanto a sua gôndola irrompia na laguna pelo canal de Mestre. 

Terei de continuar? Podem exigir-me respostas incriminadoras na caixa de comentários.  

Escrito por Luis M. Jorge

02-12-07 em 23:43

Publicado em Sem categoria